sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mães que perderam filhos contam como convivem com a ausência ...

Abaixo contem reportagem realizada pela equipe do Jornal Zero Hora que conversou com mães que perderam seus filhos.
Difícil não se emocionar !

Uma dor que não passa: Liliane revisita lembranças da presença do filho do meio, Gustavo, assassinado há três anos. Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

O toque do telefone às 5h e a notícia que a ligação trouxe, numa mistura de choro e gritos, imprimiriam com força a divisão entre a vida transcorrida até aquele momento e a que seria possível depois. Ao pressionar o botão aceitando o chamado, Liliane Severo Cardona foi golpeada pela informação que ela própria teria de reproduzir, inúmeras vezes dali por diante, disseminando o choque entre os familiares na escuridão daquele amanhecer de abril. Sozinha no apartamento onde criara os três filhos, a representante comercial distinguiu como interlocutor o caçula. Incapaz de articular qualquer explicação ou detalhamento, Leonardo sacudiu a mãe ainda sonolenta:
– Mataram o Gustavo. 
Nos três anos decorridos desde o abalo, Liliane vem revisitando lembranças e circulando entre referências da presença constante do filho do meio, assassinado aos 30 anos, ao deixar a academia onde praticava musculação. O porta-retrato ao lado da cama, o vídeo de 37 segundos contendo o único registro restante da voz, a prancha de surfe exposta no quarto da mãe e o carro onde Gustavo foi alvejado reforçam, todos os dias, uma sensação recorrente entre aqueles que enfrentam a mais temida das perdas: filho nunca deixa de ser filho.
– Ele está sempre comigo – diz Liliane, 56 anos. 
Durante um mês, ZH procurou mulheres que aceitassem contar histórias semelhantes – a exemplo da jornalista paulistana Camila Goytacaz, que acaba de lançar Até Breve, José, livro em que narra a expectativa pela chegada e a súbita morte do bebê que viveu apenas 11 dias. Mães que enterraram filhos únicos e optaram por não ter outros, mães que voltaram a encarar o desafio de uma gestação após sepultar o primeiro filho, mães que perderam filhos depois de longos períodos de convalescença, mães que, como Liliane, flagraram-se no estupor da morte repentina.
Em entrevista, Camila Goytacaz explica: "Eu tinha de atravessar aquele deserto só meu"
Muitas delas se recusaram a dar entrevista, temendo ressuscitar, anos ou até décadas depois, aquela dor do princípio. 
– Ainda é muito difícil – confidenciou uma delas, que deu à luz um prematuro que não resistiu em 1986.
Liliane, Simone e Graziela aceitaram o convite, certas de que a experiência compartilhada pode ser alento para quem se vê imerso na mesma dor. A seguir, os relatos que provam que Gustavo, Sabrine e Alice continuam, seguem, são para sempre.

As roupas e os brinquedos ensacados

Graziela, a mãe de Alice 
(Foto: Carlos Macedo)

Três dias depois da morte de Alice, em novembro de 2003, Graziela Martins Rodrigues entrou no quarto da filha de três anos e começou a ensacar roupas e brinquedos. Não queria falar com ninguém, sentindo-se exaurida pela ladainha sem sentido de amigos e parentes: “Foi melhor assim”, “vocês são jovens, terão mais filhos”. Encheu duas sacolas grandes, levadas a um centro espírita para doações. A aflição acabou por invadir um sonho que teve em seguida – dormindo, enxergou a menina.
vídeo
– Daniel, a Alice está aqui! A Alice chegou! – avisava Graziela no enredo imaginário, em busca do marido. – Alice, não sai daí que vou te mostrar para o papai.


Emburrada, a menina parecia repreender a mãe pela urgência no esvaziamento de armários e gavetas. Surgiu sem cabelos no sonho, aparência resultante do período da quimioterapia para combater um neuroblastoma gravíssimo. 

– Você já desencarnou, não está mais aqui. A mamãe deu para quem estava precisando – argumentava a mãe, antes de acordar.

Como terapia, Graziela passou a se dedicar ao tricô e ao crochê. Confeccionava sapatos e casacos para crianças que jamais conheceu. No dia 19 de cada mês, em referência à data do falecimento, deixava as peças com as irmãs clarissas do Mosteiro de São Damião, onde tantas vezes rezou pela filha, ou na portaria do Hospital da Criança Santo Antônio, sem se identificar. 

A mãe continuou a abrir a janela do quarto de Alice todos os dias para o sol entrar. Nunca fechou a porta – tinha medo de não mais conseguir abri-la. Entrava, organizava as coisas que sobraram, escolhia novos objetos para dar. Pedia para não ser importunada:
– Se ligarem, não estou. 

A assinatura tatuada
Simone, a mãe de Sabrine(Foto: Carlos Macedo)

Simone Albuquerque Prestes levou oito anos para se desfazer das roupas de Sabrine. Encontrou justificativa para a demora enquanto separava as peças para, enfim, passá-las adiante: deu-se conta de que temia esquecer a filha, morta aos 12 anos, em 2001, em decorrência de uma leucemia. A diferença de 16 centímetros na altura não impediu que a mãe mantivesse, para uso próprio, um roupão para vestir sobre a camisola nos dias mais frios. Os pertences lotaram o carro que partiu a caminho da sede do Instituto do Câncer Infantil. Restou aquilo de que a menina mais gostava: uma jaqueta jeans, uma calça vermelha, um vestido rosa costurado pela avó. Para afastar as traças e prevenir que as roupas amarelassem, Simone as lavava com frequência.
Decidida a tatuar o nome de Sabrine no corpo, a mãe telefonou para um tatuador para checar a viabilidade do intento. 

– Quero escrever com a letra da pessoa – especificou.

– Traz ela até aqui que ela escreve – orientou o profissional.

– É que ela não está mais aqui – disse ela, desconfortável com a sensação de que choca os interlocutores toda vez que tem de revelar essa informação. 

Simone então procurou uma assinatura nos cadernos da menina, ampliando-a até o tamanho desejado. No traçado arredondado da ortografia da pré-adolescente, “Sabrine” está grafado na nuca, acompanhada da figura de uma borboleta. Em uma pesquisa na internet, Simone encontrou o sentido para a imagem que queria eternizar: a borboleta está associada à ideia de renascimento. 

O carro em que ele morreu
Gustavo, o filho de Liliane(Foto: Carlos Macedo)

O Focus azul ainda exibia, duas semanas depois do crime, parte das perfurações dos tiros disparados em direção a Gustavo Cardona na noite de 23 de abril de 2012. Na oficina mecânica, requisitaram-se os serviços básicos, o suficiente para que o carro pudesse rodar de Florianópolis, residência do gerente de lotérica assassinado, até Porto Alegre, onde a mãe, Liliane, enfrentaria um desgastante processo burocrático para revender o automóvel. O para-brisa estilhaçado tinha sido substituído, e a roda avariada no choque do veículo desgovernado contra o portão de um condomínio estava consertada. 

Liliane sentou no banco do carona, procurando cacos de vidros ou manchas que denunciassem a tragédia recente. Certa de que sentiria cheiro de sangue, surpreendeu-se com o perfume do odorizador de ambientes aplicado após a lavagem. Ela e o filho Leonardo, ao volante, partiram sem o retrovisor direito, ansiosos por dar fim a mais um dos dolorosos deveres posteriores à morte. Liliane chorou por todo o trajeto entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. 

– Leo, não corre, a gente não sabe se esse carro está 100% depois do que aconteceu – suplicava ao caçula.

Pararam em Araranguá para tomar o café que Gustavo costumava comprar quando os irmãos percorriam juntos o mesmo caminho. Na chegada, sem garagem disponível no prédio, Liliane deixou o automóvel, provisoriamente, no posto de gasolina ao lado. Em inúmeras manhãs, passou pelo estacionamento e observou o carro. Tinha a sensação de que Gustavo estava em casa.

Vendido para um ex-colega de empresa, o Focus ainda cruza os caminhos da mãe, três anos depois. No verão, foi deixado em uma oficina mecânica próxima ao trabalho da representante comercial para reparos. Ela reconheceu a carro, a mesma placa. Tudo igual. 

– A gente morre junto naquele dia. Ou você aceita, ou você aceita. É uma escada que a gente sobe, cada dia um degrau. Tem momentos em que você volta três, no outro dia você sobe dois. Atualmente eu não tenho voltado nem um nem dois, tenho subido um de cada vez.

Novos lençóis, mesmo berço
Alice, a filha de Graziela(Foto: reprodução, arquivo pessoal)

Apaixonada por café, Graziela estranhou o enjoo que o cheiro da bebida passou a provocar. Menos de um ano após a morte de Alice, a explicação pareceu evidente. 

– Acho que estou grávida. 

A suspeita não representou um susto. Desejosa de outra criança, a mãe em luto não teve dificuldade para decidir encarar uma nova gestação. Questionou o obstetra que acompanhou a gravidez de Alice para se certificar de que o perfil genético dos pais não tinha qualquer relação com o câncer que matou a menina. Feliz, passou a anunciar a novidade a familiares e amigos quando se completaram três meses. Muitos não esconderam o espanto:

– Ai, você não tem medo? 

Na sala de parto, quando o médico retirou o bebê da barriga da mãe e o aproximou para o primeiro contato com os pais, Graziela enxergou um pouco de Alice em Beatriz: era roliça, cabeluda. Em maio de 2005, a nova família entrou no mesmo apartamento da Avenida Protásio Alves. Bia foi acomodada no berço de Alice, com novos lençóis.
Graziela experimentou com Bia muito do que nunca conseguiu experimentar na breve infância da primogênita. Passatempos simples, como uma volta na Encol ou na Redenção e o empurrão que fazia a menina voar no balanço, eram um deleite. 

– Mamãe, por que tá me olhando? – questionava a pequena, intrigada com o deslumbramento. 

Na residência repleta de fotos, Bia cresceu absorvendo a ideia de que a garotinha “foi para o céu”. Por volta dos três anos, frequentando a escola, ela deixava transparecer, entre colegas e professores, a curiosidade pelo que via nos porta-retratos: 

– Sabia que eu tinha uma irmã que morreu de câncer? 

Chamados à instituição, os pais discutiram uma abordagem para o caso, e algumas imagens foram guardadas. Conforme os questionamentos que surgiam, o assunto continuou sendo tratado com naturalidade. 

– Muita gente se cura dessa doença. Gente grande e gente pequena – assegurou a mãe. 

Com a filha mais independente, Graziela voltou a estudar. Tornou-se professora de Educação Infantil. 

O pingente dourado
Sabrine, a filha de Simone(Foto: reprodução, arquivo pessoal)

A altura, o cabelo curtinho e escuro, a idade, o jeito – tudo naquela menina internada no Hospital de Clínicas de Porto Alegre lembrava Sabrine. Como voluntária do Instituto do Câncer Infantil, Simone brincava com crianças na área de recreação, em uma tarde deste ano, quando a chegada da pré-adolescente lhe deu a sensação de que estava diante da filha outra vez, em um ambiente onde ambas conviveram por tanto tempo. Tímida, a garota sentou e ficou quieta. Simone arriscou um palpite: deveria ser uma paciente de diagnóstico recente. Tentou uma aproximação, pediu ajuda para ligar o videogame que entreteria o grupo.
– Qual é o seu nome? – arriscou. 
Quatorze anos depois da morte de Sabrine, Simone estuda Psicologia. Pretende se formar em 2018 e se especializar na área de oncologia. Está cadastrada como doadora de medula óssea há uma década, esperando pelo telefonema que anunciará a possibilidade de salvar alguém. Separada do pai da única filha desde a época do tratamento, ela teve outros relacionamentos e chegou a pensar em mais um bebê, mas acredita que não encontrou um parceiro à altura para um planejamento conjunto. 
Na casa onde mora com os pais, em Canoas, Simone posa para o fotógrafo da reportagem, que registra um close do pingente dourado em formato de menina que ela carrega no pescoço. A mãe de 43 anos segura a corrente com as duas mãos. Chama a atenção para um anel de ouro na mão esquerda: leva-o no meio do dedo, como a filha também gostava de usar. A joia tem a inscrição “Sabrine” na face externa. Mal se pode ler as letras, que estão desgastadas. Quer gravar o nome de novo, garante. 
– Meu sentimento é a falta de uma coisa que eu nunca vou ter – descreve. – Como poderia ser? Como teria sido?
A motoca cor-de-rosa
Pode-se ver Alice em diversos pontos do apartamento de Graziela e Daniel, que tiveram a terceira filha em 2013. No quarto das crianças, onde Cecília ocupa o berço e Beatriz a cama “grande” da irmã que jamais conheceram, há também brinquedos que foram redescobertos ao longo dos anos. Bia, 10 anos, gosta de uma caneta em formato de bailarina já sem tinta. Cecília, um ano e oito meses, aprende a se locomover na motoca cor-de-rosa em que o pai, por um cordão amarrado na frente, puxava a primogênita doente pelo estacionamento do hospital quando ela conseguia deixar o quarto por alguns instantes para brincar na rua. 

– Como é que seria eu, a Alice e a Ceci nesse quarto? – pergunta Beatriz para a mãe, vez ou outra, intrigada com a possibilidade de um cômodo daquele tamanho abrigar três ocupantes. 
Há poucos dias, Graziela encontrou um DVD com a identificação “Alice”. Resolveu assistir para relembrar o que continha. Era o batizado, celebrado em março de 2000. Logo percebeu, nos protagonistas da cerimônia na Catedral Metropolitana, o efeito dos 15 anos passados desde então – a cor do cabelo do marido, os quilos a menos que ela exibia, a aparência dos sogros, a bisa que não está mais aqui. 
– Meu Deus, como eu envelheci – surpreendeu-se a professora. 
Daniel chegou e encontrou a mulher diante da TV. Confrontado com a versão mais jovem de si mesmo, concluiu, também, estar velho. Graziela se achou bonita aos 25 anos. Beatriz, surpresa, juntou-se aos pais para conferir a gravação. Absorta em lembranças, a mãe elogiou os traços da primeira filha, numa época em que a família ainda desconhecia a nervosa rotina fixada por uma enfermidade grave. Encantou-se de novo com as bochechas do bebê de quase três meses em um vestidinho branco. 
– Ah, que saudade da minha filha.​

Por: Larissa Roso

Referência:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/noticia/2015/05/maes-que-perderam-filhos-contam-como-convivem-com-a-ausencia-4766287.html

Colaborou: Tássia Hostin - Assistente Social CRESS 4237-
Coordenadora do Serviço Social Boa Vida

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