terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Nunca estamos preparados para perder nossos pais ...


É difícil falar de qual perda é pior ... pois para cada pessoa o ente querido que se foi tem um valor diferente. Perder o filho para tal pessoa, pode ser a pior dor da vida. Já para uma outra que não tem filhos, perder o avó doeu muito. 

Abaixo consta um texto que fala sobre a perda dos pais. 
Um texto muito verdadeiro e que nos remete a uma grande reflexão !!!! 
A todos boa leitura!
Tássia Hostin de Deus






Eu viajava com meus pais. Estávamos na fila de embarque quando reparei, ao nosso lado, um pai entregando da livraria do aeroporto um livro de presente para cada filho adolescente. Os dois meninos estavam compenetrados, cada um em seu celular, brincando com algum joguinho. Os garotos nem ligaram muito para os livros, mas o pai insistiu e esperou que eles olhassem os presentes. Os meninos viram a capa, folhearam as páginas e, logo em seguida, guardaram os livros e continuaram com seus jogos.

Naquela hora, olhei para o meu pai e voltei quase 30 anos no tempo. Lembrei-me dos gibis e pacotes de figurinhas que ele me trazia. Então meus devaneios saudosistas foram interrompidos pelo choro do irmão caçula dos dois adolescentes. Não sei por que o garotinho de cerca de cinco anos chorava, mas assisti ao pai pegá-lo no colo, falar algo em seu ouvido e acalmá-lo.

Os pais são os heróis da nossa infância, sejam eles biológicos ou de coração. São eles que têm o poder de acalmar dores e fazer parar o choro. Aparecem no meio da noite para dizer que o pesadelo foi somente um sonho ruim. Sabem matemática — ou fingem que sabem — quando estamos perdidos em tarefas sem resolução.

Quem se torna pai ou mãe passa a admirar ainda mais os seus pais, pois descobre o amor incondicional que resiste como uma rocha aos tormentos da vida. Quando alguém sofre a dor de seu filho, entende o quanto os próprios pais foram corajosos e firmes para mantê-lo forte e confiante.

Porque, quando somos crianças, não sabemos que nossos heróis imbatíveis sentem medo e dúvidas, e que o escuro do quarto também os apavora de vez em quando. A criança não sabe que os pais choram e sentem dor. Não imagina que, mesmo doendo por dentro, eles aplacam as dores dos seus filhos como o super-herói do desenho animado que engole a dinamite e não se explode.

Agora adultos, enxergamos nossos pais com os mesmos olhos que eles nos protegiam, buscando confortá-los nos seus primeiros sinais do envelhecimento. Se antes eram eles que se levantavam no meio da noite e cantavam baixinho “dorme agora, é só o vento lá fora”, hoje nós os abraçamos para diminuir as suas dores da artrose, da solidão e da saudade.

Olhando aquele pai com seus filhos no aeroporto, virei para o meu e enxerguei a menina que ele pegava no colo. Suas brincadeiras de monstro que eu e meus irmãos adorávamos: ele se cobria com um lençol branco e saía correndo atrás da gente. Minha mãe ficava assistindo do sofá, às gargalhadas.

Algumas vezes, nossas vidas mudam e nos tornamos inseguros. Somos testados o tempo todo e por todo mundo. E, como somos adultos, temos que resolver nossos problemas. Mas quando o quarto esfria no meio da noite, sempre penso naquele beijo que a mamãe me dava para proteger o meu sono, e tenho certeza que a estrada que me leva à casa dos meus pais continua no mesmo lugar.

Eu estava prestes a embarcar quando entendi por que o menino chorava: seu pai embarcaria sozinho. Os meninos adolescentes abandonaram seus celulares por uns instantes e abraçaram carinhosamente o pai que partia. O filho mais novo passara para o colo de uma mulher, provavelmente a mãe, e dizia adeus com sua mãozinha que esparramava pelo ar o sentimento da despedida.

Nunca estamos preparados para perder nossos pais, não importa a nossa idade. Nelson Gonçalves cantou “naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele tá doendo em mim” para aliviar a dor de um filho ao olhar para a cadeira vazia onde seu pai se sentava e contava suas histórias. É que a ausência de um pai ou uma mãe permanece dentro da gente, como uma mesa no canto ou um jardim sem flores, como um abraço de adeus no aeroporto.





Por Rebeca Bedone em Colunistas

Referência:

http://www.revistabula.com/5910-nunca-estamos-preparados-para-perder-nossos-pais/

Acesso em 11/02/2016

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

“Sou mãe igual a todas as outras”


Da vontade de relatar a experiência da perda de seu filho, Igor, quatro dias após o nascimento, surgiu o livro “Quatro Letras”.

Em entrevista concedida ao Sorria, ela relata a sua experiência e nos convida a aprender, assim como ela, com as perdas e atribulações que a vida de cada um de nós apresenta.

Nossos agradecimentos à disponibilidade e atenção oferecidas pela Flavia ao responder nossas perguntas.

Qual foi o motivo para a escolha do nome do livro “Quatro Letras”?

A escolha do título foi devido ao fato do nome do meu filho ter quatro letras. Decidi fazer um livro no qual todos os capítulos fossem palavras de quatro letras. Assim, os capítulos do livro são: Igor, Laço, Vida, Amor, Luta, Tudo, Cura, Deus, Riso e Belo.

Minha intenção é demonstrar como é possível construir um olhar positivo sobre algo tão doloroso. – Flavia Camargo.

Qual é o seu objetivo com este livro?
Na verdade tenho dois grandes propósitos: homenagear essa pessoa que foi e continua sendo tão importante para mim, bem como levar uma mensagem de amor aos corações de todos que tomarem contato com minhas palavras.

Você já pensou em desistir do seu projeto?
Nunca pensei em desistir do projeto porque, ao passar por esse acontecimento, percebi que não era fácil encontrar estímulos para continuar sendo tão feliz quanto eu era antes. Tive que fazer um grande esforço nesse sentido. Então, achei que precisava contar quais foram as reflexões que me ajudaram, pois talvez elas sirvam para confortar outros pais, bem como as pessoas que tenham perdido qualquer ente querido.

Meu lema de vida é que todas as coisas que acontecem com a gente servem para nossa evolução. – Flavia Camargo

Como você se sentiu quando terminou o seu livro?
Senti felicidade por poder compartilhar com outras pessoas o que tinha aprendido com a minha experiência, muito difícil, mas também transformadora. Colocando meus pensamentos e sentimentos no papel, de forma estruturada, eu consegui ficar mais tranquila, pois tudo dentro de mim se organizou e se esclareceu.

Como podemos encontrar o “Quatro Letras”?
Meu livro está sendo vendido pela Bookstart, que não é uma editora, mas um site de financiamento coletivo. Por isso, trata-se de um procedimento diferente. Não haverá lançamento com noite de autógrafos. O livro só pode ser comprado pela internet, não irá para as livrarias. As pessoas interessadas podem acessar o link www.bookstart.com.br/quatroletras onde estão disponíveis algumas opções de pacote. O prazo para participar da campanha e comprar o livro é entre 13/11/15 e 12/01/16. Depois dessa data, os leitores receberão o livro diretamente em suas casas pelo correio.

Qual foi e é a importância do seu marido nessa fase de superação?
A ajuda do meu marido foi essencial. Ele teve muita paciência e disposição para conversar comigo muitas vezes. Por me sentir respeitada, tive mais força para lutar e me reerguer.

Quando decidi ser mãe, desejava que a maternidade me trouxesse desafios com os quais eu iria me aperfeiçoar. Não poderia mais dormir quantas horas quisesse, pois teria que cuidar primeiro da alimentação dele e de seu bem-estar. Como as coisas saíram diferente do que eu imaginava, ele não está mais aqui para me exigir tantas renúncias. Mas mesmo assim ele continua me dando desafios para o meu aperfeiçoamento. Renunciar à convivência com ele tem sido um exercício diário de muitas virtudes, pois preciso combater o egoísmo, o apego, etc. Então, enxergar por esse ângulo me faz sentir que sou mãe igual a todos as outras. Cada uma se aperfeiçoa de um jeito. Mas um filho é sempre um aperfeiçoador da mulher que o concebeu. E a partida dele não impede que sua mãe continue aproveitando a oportunidade de evoluir. – Flavia Camargo.

As perdas podem ser superadas por completo ou haverá sempre uma pontinha de mágoa?
Eu não parei de chorar. Pelo menos uma vez por semana, ou a cada 15 dias (é um tempo variável, de acordo com as circunstâncias do momento), algum episódio ou lembrança aflora minhas emoções mais intensas. Porém, posso afirmar que as lágrimas não são sinal de tristeza. Já aceitei que a natureza é soberana e não posso me opor à morte, que tenho compreendido como um processo natural inerente à própria vida. Dentro desse contexto, entendo que é possível superar por completo a perda e a mágoa. Só gostaria de registrar que isso é algo independente do fato de ainda me deixar inundar pelo amor que permanece, e que pode de vez em quando me levar ao pranto. Mas, com o cultivo da humildade, esse pranto é ameno, suave, sem sofrimento. Apenas um instante em que a consciência me faz chorar de emoção, recordando de que existe alguém muito especial e que eu espero poder reencontrar um dia.

Muitas mães e muitos pais estão passando, agora, pelo que você passou. O que você diria a eles?
Digo para eles que existe luz no fim do túnel. Redirecionem o sentimento que transborda de suas almas para o próprio interno. Aprender a amar a si mesmo como se amava o filho que partiu é um caminho viável para quem deseja ser feliz novamente. A alegria que um filho nos proporciona ao nos dar a oportunidade de criar uma nova vida pode ser reencontrada ao nos tornarmos nossos próprios criadores. A morte de um filho nos leva a reformular conceitos, refazer a identidade e, enfim, a nos reinventarmos. O carinho empregado na construção desse nosso novo “eu” tem o potencial de gerar uma felicidade incomparável, quando percebemos que nosso filho nos transformou em uma pessoa melhor.

Na foto Flávia grávida de Igor (In memoryn) e o esposo:






Referência:

Disponível :


Acesso em 04/02/2016 

Colaborou Patrícia dos Santos
Psicóloga do Plano Boa Vida

E-mail: patricia.santos@boavida.com.br