quarta-feira, 23 de março de 2016

O luto e o tempo


Por: Marina Fiuza / 2013 -

Um ano. Quem já perdeu alguém diz que o luto precisa conhecer as quatro estações antes de afrouxar suas rédeas. É necessário conhecer a vida na ausência do outro: aniversários, Natal, ano novo, dia dos pais, dia das mães... Só depois de um ano o coração desiste de esperar pela volta daquele que foi e, então, parte por outras buscas.
Dias de ansiedade antecediam as datas festivas. Minha dor era "maior que o mundo", mas era mais fraca que o tempo que continuava a trazer novos dias. Junto com eles, vinham as lembranças ainda recentes de um tempo em que éramos completos. Ano passado ele me deu tal presente. Ano passado ele estava em tal lugar. Ano passado comemoramos de tal maneira.
Depois de trezentos e sessenta e cinco rodopios em volta do próprio eixo, completávamos a grande volta solar e chegávamos, enfim, àquele mesmo ponto espacial. A disposição dos astros nos devolvia a gravidade de outrora anunciando o seu primeiro aniversário de morte.
A todo instante eu olhava no relógio e experimentava um certo alívio. 12:00. Ele ainda estava vivo. Como será que ele se sentia aquele dia? O que ele comeu naquele último café da manhã? 12:45. Ele ainda estava trabalhando. Quais planos ele tinha para a empresa? 13:00. Ele ainda estava em casa. Quais foram os últimos objetos que ele tocou antes de sair de casa? 14:00. Ele estava se preparando para viajar. Será que ele pressentiu qualquer coisa? Será que sentiu alguma angústia ao sair de casa? 14:30. Ele estava com os amigos. Ele amava os amigos. Ele estava feliz. 14:55. Ele estava viajando. Não vá, meu irmão. Escute-me! Não siga viagem! 15:00. (…)
15:01. O ano estava concluído. À minha volta a mesma ausência presente, a mesma dor impregnada nas paredes, a mesma saudade exalando dos objetos. Hugo acabava de morrer novamente na minha lembrança sem que eu nada pudesse fazer para impedi-lo. Ainda estava muito longe de superar. Não dava para aceitar. Mas era hora de começar a acreditar.
No dia seguinte acordei com o coração mais leve, com uma repentina disposição para iniciar o novo ciclo que se estendia à minha frente, com novos desafios e diferentes propósitos. O desejo de trazê-lo de volta cedeu lugar, naturalmente, ao desejo de aceitá-lo distante. Desejo de fazer as pazes com a realidade que ele deixou.
Isso não é dizer que a dor passou. Nem que a dor abrandou. A morte do meu irmão continua sendo igualmente terrível e não acredito que será diferente nos próximos anos. Apenas me acostumei com sua ardência, assim como os casais que, ao compartilharem uma vida inteira sob o mesmo teto, passam a não se comover e nem se perturbar com a presença um do outro, embora saibam-se lado a lado. A dor habita todos os lugares em que eu esteja. Mas ao contrário do início de nosso trágico relacionamento, ela já me permite realizar minhas pequenas ações cotidianas sem pranto.
Antes dos 365 dias, quando vivia um instante de alegria – porque sim, momentos alegres continuaram acontecendo apesar de tudo -  eu logo estranhava os músculos da face abrindo num sorriso raro. Ao experimentar os hormônios da felicidade fazendo cócegas pelas minhas veias eu esquecia da tristeza, ainda que por uma fração de segundos. Impulsionada pelo estranhamento eu logo me perguntava por que é que eu estava triste mesmo? Então eu lembrava. Lembrava e me surpreendia novamente com a tragicidade da notícia.
Não poderia numerar quantas vezes a mesma notícia me pegou de surpresa. Noite passada sonhei que o via abrir os olhos. Eu dava pulos de alegria e mal conseguia gritar para os meus pais que o Hugo estava vivo novamente. Acordei e me deparei com a realidade inabalada. Hugo continuava morto. Pega de surpresa novamente.
Ao contrário dos primeiros meses, porém, suportei as contrações do meu coração sem fazer brotar lágrimas. Levantei da cama e fiz tudo o que tinha que fazer, embora lembrasse daquele movimento de pálpebras abrindo a cada instante.
Antes eu talvez não conseguisse me levantar. Nem tampar a fonte das lágrimas. Antes, se eu lembrasse da morte do Hugo enquanto caminhava na rua, por exemplo, meu passo ficava mais lento, a espinha curvada para o chão, como se me caísse sobre os ombros uma imensa carga pesada. Durante muito tempo tive a sensação de ter morcegos com os dentes cravados em meu pescoço, sugando meu sangue e me tirando as forças para realizar o mais simples movimento.
Mas depois do primeiro ano ficou diferente. Os sustos acontecem da mesma maneira, mas a dor ficou menos pesada. Passou a caber dentro de mim. Hoje a dor é mais silenciosa, mais íntima. Hoje a dor tem mais respeito por mim, permite-me muitos instantes de alegria sempre ascendente, alegria não interrompida. Hoje tenho, inclusive, medo da dor passar.
Sofrer a falta do meu irmão é a maneira de tê-lo presente em minha vida.  É como se houvesse um espaço vago constantemente a me lembrar da sua ausência. Porém, é sofrendo a ausência que o tenho por perto. Deixar de sentir sua falta seria perder nosso último elo, um elo chamado saudade.
Porque não me bastaria lembrar do meu irmão somente diante de um retrato. Não quero a “saudade boa”, de que as pessoas tanto falam. Quero a saudade latente, essa que me acorda os sentidos, que acelera o coração e aquece o sangue. Quero, como na noite passada, vê-lo abrir os olhos detalhadamente, com a nitidez que só a falta dolorosa é capaz de criar.
Para manter a saudade forte, alimento a falta com frequência. Aproveito meus instantes de solidão para me machucar com lembranças bonitas. Torturo-me com fotos, com vídeos, com objetos. Rezo. E choro, pela tristeza de não tê-lo mais. Mas choro, também, pela alegria de tê-lo sempre.

Acesso em: 14/03/2016.


Colaborou: Patrícia dos Santos - Psicóloga do Boa Vida
E-mail: patricia.santos@boavida.com.br

sexta-feira, 18 de março de 2016

Boa Vida recebe do Procon de Blumenau o Selo Diamante - Em excelência em atendimento 2015

No dia 15 de março estivemos em uma cerimônia especial na Prefeitura Municipal de Blumenau onde o plano Boa Vida recebeu o selo excelência em atendimento 2015 -SELO EDA - EMPRESA DESTAQUE.
Com a presença do Prefeito Napoleão Bernardes, do Diretor do Procon Alexandre Caminha e demais autoridades, os vencedores presentes foram homenageados. O selo é entregue para os comerciantes que prezam pelas boas práticas e tem responsabilidades com o consumidor.


Sra. Tássia Hostin de Deus, recebeu o selo em nome do Boa Vida.





Colaborou Luiz Carlos Crespo.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Saiba o que não dizer a um pai que perdeu o filho (segundo o próprio)



Ninguém está preparado para perder um filho. Pela ordem lógica dos acontecimentos, as coisas deveriam ocorrer ao contrário. A vida dá uma volta de 180º e não se sabe o que fazer, nem como lidar com o futuro.

O autor norte-americano Sam Fiorella escreveu um texto para o site Huffington Post onde descreve a forma como lidou com a morte do seu filho de 19 anos, que decidiu suicidar-se após um longo período de depressão.

“Não há palavras que me consigam consolar. A morte é triste para os familiares e amigos que de quem partiu, mas também para aqueles que apoiam os que cá ficaram”, acrescenta.

O autor descreve a ineficácia das palavras em casos destes. Aqueles que nos rodeiam tentam por tudo confortar-nos, mas não têm noção da falta de poder que estas afinal possuem.

“Dizemos aos sobreviventes para serem fortes, para recordares os bons momentos (…) Infelizmente – e especialmente nos casos de suicídio – as palavras falham. Elas não deviam sequer ser partilhadas com aqueles que estão a sofrer. Apesar das boas intenções que tentam transmitir, acabam por agravar o sofrimento daqueles que fazem o luto”, explica Sam Fiorella.

O autor fez uma lista das frases que lhe foram ditas após a morte do filho que em nada ajudaram a superar a perda de Lucas, de 19 anos.

1.    “Como estás?”: “Só existe uma resposta para isso: “Estou péssimo, obrigado por perguntares”. Claro que não é isso que respondo, aquilo que digo serve apenas para ser simpático para com aquele que pergunta”, afirma. “Em vez de me perguntar como estou, dê-me apenas um abraço silencioso”.

2.    “Seja forte”: “Se ser forte significa que não devo viver o luto, fingir que o meu coração não está despedaçado, não o consigo fazer (…) É impossível. Àqueles que o tentam fazer, isso não é saudável. Só serve apenas para prolongar a agonia”, acrescenta.

3.    “O pior vai ser nas alturas festivas”: “O meu filho morreu a meio de Outubro e todos me dizem que o Natal vai ser terrível. Sim, os aniversários e as épocas festivas vão ser tristes, mas porquê antecipar o sofrimento? Eu não sei como vou me sentir nessa altura”.

4.    “Sinto a tua dor”: É impossível sentir a dor de um pai que perde um filho. Pior ainda, esta frase acaba por colocar ainda mais pressão naqueles que perderam o familiar. “Saber que existem pessoas a sofrer connosco é uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo. Sentimos o amor dos outro (…) mas por outro lado não conseguimos fazer o luto se estamos ocupados a consolar os outros”, diz o autor.

SOL

Referência: http://www.ionline.pt/artigo/497606/saiba-o-que-nao-dizer-a-um-pai-que-perdeu-o-filho-segundo-o-proprio-?seccao=vida_i

Acesso em 08/03/2016

Colaborou Tássia Hostin de Deus - 
Serviço Social Boa Vida
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br

sexta-feira, 4 de março de 2016

Você gosta de olhar as fotos de quem partiu?


            Como você se relaciona com as fotos das pessoas amadas que partiram? 
    Fizemos essa pergunta em nossa enquete do mês e a resposta mais clicada (45%) foi a alternativa “gosto, mas fico bastante emotivo… por isso não vejo tanto”. Soa familiar?




“Olhar uma foto pode ajudar você a se conectar com a presença interna da pessoa amada. Para algumas pessoas, no entanto, a imagem remete à falta e isso causa sofrimento, diz o psicólogo Carlos Carvalho. As diferentes reações são compreensíveis, como revelam as outras duas respostas da nossa enquete, por ordem de preferência: “sim adoro, vejo sempre” (42%) e “não, me deixa muito triste, prefiro evitar” (12%).

Resultado da enquete:

A partir desse resultado fomos tentar entender se alguma das atitudes seria mais benéfica no processo da elaboração do luto. O consenso é de que não existe um jeito que ajuda mais ou outro que ajuda menos. Existe, como na maioria das situações que envolvem o luto, a necessidade de respeito absoluto ao desejo de cada um. “Não tem certo ou errado” diz a psicóloga Elaine Gomes dos Reis Alves, do Laboratório de Estudos sobre a Morte da Universidade de São Paulo. “Mais importante do que entender se as fotos das pessoas queridas vão deixar o enlutado mais triste ou feliz, é respeitar a vontade de quem perdeu alguém vê-las ou não. É autorizá-las a fazer o que desejam. É tão natural que queiram vê-las para entrar em contato com a imagem de quem partiu quanto compreensível que se emocionem e prefiram, por algum tempo, evitá-las”, diz a Dra Elaine. No entanto, é fundamental, mesmo para aquele que prefere não olhar as fotos num primeiro momento, conservá-las, mantê-las à disposição para quando quiserem acessá-las. “O que faz bem,” diz a psicóloga, “é saber que pode tomar as próprias decisões. Hoje a pessoa não quer ver, mas em algum momento vai querer. As fotos ou filmes estarão lá para isso. O enlutado vive um momento, logo a após a morte da pessoa querida, muito fragilizado. Está muito vulnerável às opiniões alheias. A maior parte das pessoas com quem trabalhei em consultório que diziam querer descartar fotos e pertences o faziam, na maioria das vezes, por terem sido aconselhadas a isso por quem acredita que agindo dessa maneira vai amenizar o seu sofrimento.”

As fotos e filmes são importantes porque, além de registrarem imagem da pessoa querida, cumprem o maior desejo de todos que perderam alguém que amavam: não permitir que sejam esquecidas. “Uma das atitudes que tem ajudado em casos de perdas gestacionais tardias ou óbitos neonatais é deixar que os pais passem um tempo com o filho e se desejarem, fazer uma foto do bebê”, conta Dra. Elaine. “Até pouco tempo, no caso de bebês natimortos ou mortos no parto orientava-se os pais a nem verem os filhos. Isso felizmente mudou e hoje eles são incentivados a pegá-los no colo, vesti-los e passar um tempo com eles. Os pais que fazem uma foto desse momento relatam depois sentir um conforto a partir da imagem feita, enquanto os que não tem uma foto dizem que lamentam não ter um registro do filho”diz a psicóloga.


 Por Cynthia de Almeida 


Acesso em 02/03/2016


Colaborou Tássia Hostin - 
Assistente Social CRESS 4237
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br