terça-feira, 12 de julho de 2016

História de superação: “O sentido da vida pra mim, é o simples fato de estar vivo”


Filho único, ele perdeu a mãe e, em seguida, o pai foi também, de ‘saudade’; o sentido da vida é ‘estar vivo’

O administrador potiguar Alyryo Machado Freire, de 36 anos, é leitor do blog (olha que chique) e enviou há algum tempo uma mensagem expressando a vontade de compartilhar sua história.

Primeiro eu fiquei bastante contente com o fato de alguém que eu não conhecia querer dar seu depoimento, assim, espontaneamente. Depois, muito emocionada com a história dele. Na primeira mensagem, foi dessa forma que ele resumiu sua experiência:

“Gostaria de compartilhar um pouco da minha história com vocês. Sou filho único e perdi meus pais em 2009 (minha mãe em janeiro e meu pai nove meses depois). Aprendi que a vida nem sempre é fácil, mas, apesar de tudo, pode ser doce.”

Como ele mora em Brasília, enviei as perguntas por e-mail. Acabei lendo as respostas num dia que eu estava meio ‘jururu’. Terminei a leitura com lágrimas nos olhos, emocionada pelo relato e feliz por ter recebido o que considerei um ‘presente’ naquela manhã cinzenta de feriado de plantão: alguém tinha uma história, de muito aprendizado, para me contar.

Alyryo conta o período que ficou na UTI tendo que acompanhar os dois pais internados. Seu pai teve um infarto pouco tempo depois de a mãe ser internada por uma doença autoimune. “Fiquei conhecido no hospital como ‘o rapaz que está com o pai e a mãe hospitalizados e é filho único'”.

Ele diz que após a mãe morrer esperou 15 dias para dar a notícia ao seu pai, acompanhado de uma grande equipe médica. Relata como que a morte da mãe fez ele se aproximar do pai, com quem havia tido pouco contato. “E é ai que vem a parte mágica nisso tudo. Hoje, vejo que sabiamente Deus me deu uma oportunidade de conviver com o homem, que muito embora eu o admirasse, pouco tempo tinha para que ficássemos juntos devido ao trabalho. Estávamos agora eu e ele, convivendo como amigos, em um apartamento pequeno.”

Quando seu pai partiu, ele disse que “chegou ao fundo do poço”. “Mas como certa vez minha analista disse: a morte tem dois fatores importantes: Ou ela te faz afundar junto com ela ou você pega impulso, aproveita a vida e vive da forma como você nunca viveu’. Eu preferi a segunda'”.

Compartilho a história que o Alyryo contou:

Nasci em Natal, às 13h do dia 30 de maio de 1977. Após três abortos (minha mãe teve sérios problemas em todas as vezes que tentou engravidar, inclusive na minha), cheguei ao mundo saudável e, falava meu pai, risonho também.

Fui uma criança que cresceu rápido, no meio de dois adultos (meus pais foram pais em idade avançada. Ele com 38 anos e ela, com 43).

Tive uma excelente educação. Pai ausente por conta da dedicação ao trabalho, mas sempre muito amável. Mãe dedicada, dona de uma fé invejável e minha maior referência como exemplo de doçura e amor ao próximo.

Cresci, me formei, iniciei a fase profissional com um pouco de ambição (que hoje confesso não ter mais – e nem quero). Fui um jovem que adorava festa (e ainda adoro), qualquer coisa para mim, por mais simples que seja, é motivo para comemorar. Cheguei na fase adulta com alguns conceitos e fui me desfazendo deles aos poucos. Não valia a pena alimentá-los [mais ao final ele conta que trata-se do apego às coisas materiais].

'Foi doloroso, mas, eu quis comprar uma briga comigo mesmo'
‘Foi doloroso, mas, eu quis comprar uma briga comigo mesmo’

Internação da mãe
No final de 2008, já debilitada por causa de uma doença autoimune que se chama Síndrome Sjogren, minha mãe foi internada para acompanhamento médico e início de um novo ciclo de medicação imunossupressora. Depois de 15 dias ela já estava com sérias complicações e foi internada na UTI.

Meu pai, no horário da visita médica, sofre um infarto no saguão do hospital. Lembro bem que nesse dia eu olhei pro céu e pedi a Deus que me desse ombros mais largos, pois o fardo estava pesado. A situação do meu pai era crítica, a da minha mãe irreversível. Eu estava na eminência de perder os dois ali, a qualquer minuto. Sentia medo, mas, mais do que medo, eu sentia uma dor enorme de não poder conviver com a alegria dele e a sabedoria dela.

Eu nunca ficava só, tinha o apoio de muita gente querida e da família. Passava os dias e noites no hospital, meus amigos e minha família se revezavam numa escala dolorosa de horários, inclusive me velando o sono. Quando eu fraquejava, ajoelhava e pedia a Deus que fosse feita unicamente a sua vontade e não a minha. Acho que foi a partir desse período que comecei a trabalhar em mim o desapego.

Sentia uma dor tão gigante ao entrar no leito das UTI´s e ver meus pais imóveis, entubados, com várias complicações, que reunia forças, e entregava ao Pai a vida de cada um. Sinceramente, não pensava em mim, na dor que iria sentir quando um deles partisse.

Lembro que um dia, na capela do hospital, minha tia (irmã da minha mãe), me falou: ‘eu não consigo entregar a vida da minha irmã assim tão fácil, queria que ela lutasse’. Eu respondi: ‘eu também pensei que nunca fosse conseguir. Estou cansado, ela também. Entrego a Deus para que ele a conceda o melhor’. Ficamos calados.

Fiquei conhecido no hospital como “o rapaz que está com o pai e a mãe hospitalizados e é filho único”. Lembro que foi a época que mais me senti acariciado e fortalecido na vida, vinha gente de todo canto e de todas as crenças me dar apoio. Tive inúmeras conversas que levarei pela vida inteira.

O adeus
No início de 2009, mais precisamente dia 6 de janeiro (Dia de Santos Reis), às 4h50, o telefone toca. Era do hospital. Naquele momento eu já sabia o que ocorrera, tinha perdido um dos dois. Acompanhado sempre por amigos e pela família, chegamos ao hospital e fui informado que minha mãe havia sofrido uma parada cardiorrespiratória e falecido.

Nessa época, meu pai apresentava melhoras. Fazia uns quatro, cinco dias que havia saído do coma, e eu o visitava diariamente. A pergunta que eu ouvia era sempre a mesma: ‘e sua mãe?’. Eu sempre respondia: ‘pai, situação complicada, o quadro dela está irreversível, acho que não teremos mais a companhia dela em casa’. Ele virava o rosto para chorar.”

Naquela manhã, eu queria que a dor passasse rápido. Junto com as irmãs da minha mãe, decidimos que faríamos um velório rápido, seguido por missa e enterro. Reuni forças, juntei dois amigos a tiracolo e fui fazer a visita do meu pai, como de praxe, antes de ir ao velório. A fatídica pergunta veio e já aconselhado pelo médico, não pude ser sincero. ‘Menti’.”

Meu pai soube da morte da esposa 15 dias após o ocorrido, ainda na UTI e por meio de uma junta médica, composta por cardiologista, psicólogo, assistente social, junto comigo e seus dois melhores amigos. Embora eu já viesse o preparando, foi doloroso para ele e para mim.

Com fé, ele saiu do hospital. E é ai que vem a parte mágica nisso tudo. Hoje, vejo que sabiamente Deus me deu uma oportunidade de conviver com o homem, que muito embora eu o admirasse, pouco tempo tinha para que ficássemos juntos devido ao trabalho.

Estávamos agora eu e ele, convivendo como amigos, em um apartamento pequeno. E ele saiu do patamar de pai, para se tornar meu filho. O envolvi em todas as minhas rotinas, de saída com amigos, até a ida ao cinema e caminhadas no parque. Como ele não dirigia, eu ia deixá-lo e buscá-lo na casa dos amigos. Desenvolvemos uma cumplicidade que nunca havíamos tido (sempre fui mais próximo da minha mãe).

Mas, ainda assim, ele havia perdido o ânimo pela vida. Lembro que um dia cheguei em casa do trabalho e o encontrei chorando baixinho no quarto, por impulso, pedi que ele me ajudasse a superar aquilo, que eu também sentia muita falta da minha mãe, mas ela não voltaria mais.

Ele apenas me falou uma das frases mais bonitas que escutei até hoje: “o amor que você sente pela sua mãe, é de filho. O meu, é de homem, esposo”. Ali, percebi, que vivíamos dores diferentes e fui forçado a respeitar o seu tempo.

Em setembro, ainda abatido, com 38 quilos a menos, ele sofre outro infarto, segue para o hospital, fica hospitalizado por sete dias e no dia 14 de setembro de 2009, exatos oito meses e nove dias após a perda da minha mãe, vai ao encontro dela.  Acho que ele morreu de saudade.

Sinceramente, fiquei sem chão.

Uma amiga, enquanto eu estava velando o corpo do meu pai, foi na minha casa, fez duas malas de roupas minhas e, na saída do enterro, me puxou pelo braço e disse: “a partir de hoje, você mora comigo”.  Senti como se um anjo tivesse me segurado no colo, e com ela eu morei por quase três meses, até sair do apartamento, mudar para um outro e encarar a vida de frente.

Fui ao fundo do poço, mas como certa vez minha analista disse: “a morte tem dois fatores importantes: Ou ela te faz afundar junto com ela, ou, você pega impulso, aproveita a vida e vive da forma como você nunca viveu”. Eu, preferi a segunda.

Sofri, sofri muito. Mas, quando decidi que iria levantar, reuni toda a garra do mundo e imaginei: “Nada de pior pode me acontecer, já perdi o que tinha de mais valioso na vida. Que agora venha só alegria”.

Voltei ao mercado de trabalho, comecei a ocupar o meu tempo, fui visitar alguns amigos que moravam distante de mim e em maio de 2010 vim à Brasília, visitar uma prima, me encantei com a cidade, recebi um convite dela e quatro meses depois, como forma sábia de fugir de algumas dores que ainda me rondavam, mudei para a capital federal.

Aqui já reconstrui muita coisa, tenho bons amigos, um bom trabalho, sinto-me querido e envolvido no dia a dia da cidade. Se vou ficar aqui até o fim da vida, não sei. Hoje, nada me prende em lugar nenhum. Sou do mundo.

Não sou casado, não tenho filhos, mas sou padrinho de quatro afilhados. Cada um(a) me dá uma alegria diferente.

‘Quis comprar uma briga comigo mesmo’
Bom, pelo que Alyryo me disse, hoje sempre busca uma forma de preencher o tempo vago. Vai ao cinema, encontra amigos. “Nos finais de semana gosto de sair pela cidade com a máquina em punho e fazendo fotos ou de ficar escrevendo no computador crônicas ou textos sobre filmes. Ocupo a mente o tempo inteiro, se eu parar, penso sempre em besteira.”

“Foi doloroso, mas, eu quis comprar uma briga comigo mesmo. E hoje me considero um vencedor. Perder na vida dói muito, e perder quem se ama, dói mais ainda. E chega a ser uma dor física. Reunia forças cada vez que o desânimo me batia à porta e jogava para o alto a tristeza embora. Lembro que um dia, me veio uma vontade muito forte de pular da janela do prédio da amiga que me acolhia após morte do meu pai, era uma voz que me dizia: “pula, você não tem mais nada na vida mesmo’. Me tranquei no quarto e fiz uma oração forte. Aprendi que ou a gente chuta o fantasma da morte para bem longe, ou ele monta na gente. Tive todos os distúrbios recorrentes do luto e brigo com todos até hoje (ansiedade, compulsão alimentar – engordei 14kg, insônia, irritação, fadiga profunda), mas, tenho consciência que não dá para vencer todos de uma vez. Bem acompanhado eu venci a balança e voltei para o meu peso, ainda faço uso de medicamentos para estabilizar meu humor e mesmo quando não estou com pique, encontro força nos meus amigos de academia e vou correr, malhar, viver. Entendi, que eles partiram por que era a hora de cada um e a minha hora, ainda está correndo.”

O sentido da vida: ‘estar vivo e respirando’
Sobre o sentido da vida, ele me disse: “Hoje pensando aqui, depois disso tudo, o sentido da vida para mim é estar vivo e respirando. Tudo tem sentido. Antes eu cultivava a ideia do acumulo material como bem mais precioso, vi meu pai, um workaholic de primeira, construir muita coisa, mas não levar nada dentro do caixão além de um par de sapatos, uma calça e uma camisa. Quando o vi realmente partir, fiquei pensando: “meu Deus, tanto esforço, tanto corre-corre, para quê?”. Ele vivia planejando a viagem perfeita com minha mãe, o sonho de comprar o carro que sempre quis. E nunca realizou”.

“Eu até então cultivava a mesma ideia. Pensava aqui, quero conhecer tal país, mas vou esperar a companhia de alguém especial. Quero ir no cinema, mas ninguém topa. Moral da história: no ano passado conheci a cidade que eu era louco para conhecer desde de adolescente e não esperei por ninguém, além de mim, para realizar esse sonho. Hoje penso, se estou vivo e tenho condições físicas, eu tenho tudo. Nunca descobri tanta força. As vezes olho pra trás e penso: “Só me resta agradecer, por tudo”. Resumindo, o sentido da vida pra mim é o simples fato de estar vivo.”



Referência : 
https://vidaria.com.br/2014/04/27/filho-unico-ele-perdeu-a-mae-e-em-seguida-o-pai-foi-tambem-de-saudade-o-sentido-da-vida-e-estar-vivo/

Acesso em: 18/05/2016

Colaborou Tássia Hostin de Deus
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br 

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