terça-feira, 13 de setembro de 2016

Emoções congeladas: a analgesia da dor !

Embora a sociedade insista em formatar o processo de luto evidenciando o choro e a tristeza como manifestações esperadas para este momento, não é incomum depoimentos de pessoas que relatam terem “perdido” a capacidade de sentir emoções, tanto boas quanto ruins, após uma perda importante.





O entorpecimento ou analgesia de qualquer tipo de sensações, sejam elas de alegria ou de tristeza, parece fazer parte da vida que resta para alguns sobreviventes. Foi isso que nós aprendemos lendo alguns relatos que chegaram por meio do confessionário e, posteriormente, conversando com especialistas na área.

John Bowlby foi um psicólogo e psiquiatra britânico pioneiro na teoria do apego. Segundo Bowlby, um bebê já manifesta reações à falta ou perda da mãe. Isso significa que a emoção é um processo que crianças, adolescentes, adultos, idosos, homens ou mulheres vivem, todas as vezes que perdem alguém com quem tinham um forte vínculo. A dificuldade de expressar ou sentir, não significa que o sujeito não tenha emoções. Entramos em luto todas as vezes que rompemos fortes laços afetivos. A forma como vamos viver este luto, como vamos agir ou expressar a dor está ligada a vários fatores e é um processo absolutamente idiossincrásico, ou seja, é próprio de cada indivíduo.

Este processo se desenrola a partir da estrutura de personalidade do indivíduo, da história deste com o falecido e de variáveis como idade da perda, tipo de morte, circunstâncias ambientais e rede de apoio que a pessoa tem a partir de então. Um exemplo disso é que irmãos que vivem a mesma perda, um pai, por exemplo, têm reações e comportamentos diferentes. É preciso cuidado para não esperar um padrão único de manifestações de luto.

O relato publicado neste site, na sessão Inspiração-Belas Histórias e Reflexões, do dia 16 de agosto, no qual Rosane, adolescente na época, relata a experiência trágica de ter perdido o pai, por suicídio, pode nos ajudar a pensar nesse universo complexo e particular de quem tem como tarefa viver o processo de luto de alguém que ama. Como ela mesma descreve, “entristecer me pareceu muito amedrontador” e então encarcerar as emoções foi o recurso que construiu para evitar o imenso sofrimento e continuar com a vida que lhe restou.

Como compreender esse mecanismo de congelamento das emoções? Por que isso acontece com algumas pessoas? Qual é o custo psicológico desse investimento que a primeira vista, parece resolver o conflito?

Passar da alegria para a tristeza em poucos segundos, é uma tarefa de alto custo psicológico, do ponto de vista da dinâmica emocional. Foi exatamente isso que aconteceu com Rosane, que aproveitava seu primeiro dia de um período tão esperado de férias com amigos. O que seria um tempo de prazer e boas recordações, se transforma em uma tragédia que carrega imagens de muito sofrimento e não aceitação. É preciso compreender que além do nosso controle consciente, existem, em nosso funcionamento psicológico, outros mecanismos que estão além dos nossos controles racionais, e que funcionam como alertas para proteger a integridade do “EGO”.

Freud (1894, Vol III ), em “As Psiconeuroses de defesas” já apontava para o fato de que ideias, representações e afetos traumáticos podem ser sentidos pelo sujeito como incompatíveis com a sua vida psíquica, por produzirem sentimentos tão angustiantes que, dentro de sua estrutura de personalidade, não existiria outra saída senão esquecê-los, rechaçá-los ou amortecê-los.

Anos depois, em 1925 Freud, escreve sobre os mecanismos de defesa, como sendo mecanismos desenvolvidos pela psiquê com o objetivo de proteger a integridade do ego do sujeito. Neste estudo, descreve os mecanismos de defesa como sendo universais, ou seja, todas as pessoas fazem uso deles, em menor ou maior grau. A ocorrência da angústia, ocasionada pelos conflitos, seria condição indispensável para a ativação de algum mecanismo de defesa para proteger a integridade de ego.

Sabiamente, nosso ego desenvolve e seleciona defesas psicológicas importantes para nos proteger de situações que o ameaçam fortemente, e o LUTO é uma delas. Não fossem estas defesas acionadas, possivelmente enlouqueceríamos ou entraríamos em surtos de loucura, que é o que acontece quando elas falham.

A experiência de viver uma perda importante, em qualquer idade, é altamente desorganizadora do ponto de vista psicológico. Durante o período de luto, o ego precisa lançar mão de defesas que o ajudem a lidar com a situação.

O “congelamento das emoções”, referido por algumas pessoas que passam por uma perda importante, é seguramente um forte mecanismo de defesa que tem a tarefa de impedir que a pessoa sinta dor e sofrimento, contudo ele acaba fazendo com que a pessoa não sinta nada, nem alegria, nem angustia, nem sofrimento, nem nada.
É importante saber que ele não é uma escolha consciente, ninguém diz “vou congelar minhas emoções” e as congela. Então porque elas congelam? Porque seu inconsciente entendeu que esta seria a melhor solução temporária para seu tipo de personalidade, para sua idade, seu momento e para a situação que você viveu.

Você pode então pensar que o congelamento das emoções pode ser uma ótima solução para o sofrimento do processo do luto, mas na verdade não é. Por que? Porque o que não digerimos psicologicamente, fica parado em algum lugar da nossa psiquê e reaparece, seja em forma de dor física, doença, depressão, sintomas psicológicos como pânico, compulsão etc..

Dar atenção aos seus sentimentos é condição para não adoecer. O congelamento das emoções pode ser um recurso necessário por um determinado tempo, mas não servirá para ser usado para sempre. Assim, quem está em luto, deve compreender que:

Todas as formas de expressão de sentimentos são importantes para que se possa elaborar a dor;
A rede de apoio da família e amigos é um suporte muito importante durante, no mínimo, o primeiro ano da perda;
A psicoterapia de apoio ao luto é indicada para todas as pessoas que tiveram uma perda importante;
Cuidar da saúde física e mental é a possibilidade de passar por todos esse processo de forma mais saudável.
Não há receitas ou fórmulas mágicas para aplacar a angústia e a dor de uma perda. Embora nossa razão saiba que nascimento e morte são ocasiões que marcam o ciclo da vida, insistimos em esquecer e deletar da nossa memória, a morte. Colin Parkes em “Amor e Perda” lembra que não podemos amar sem corrermos o risco de perder. Ou, dito de outra forma, o tamanho do amor é equivalente ao tamanho da dor.

 Por Gisela Adissi 13/09/2016

Fonte: Ana Lúcia Naletto e Lélia Faleiros Oliveira são psicólogas do Centro Maiêutica e desenvolvem trabalhos na área de luto em cemitérios, crematórios e funerárias. www.centromaieutica.com.br


Referência : 


Acesso em 13/09/2016

Colaborou Tássia Hostin de Deus - 
E-mail: tassia.hostin@h1.net.br





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