terça-feira, 29 de novembro de 2016

Era só um cachorro…


Será que nos permitimos passar pelo processo de luto na proporção do amor que sentimos por nossos animais de estimação?




Há algum tempo ensaiamos escrever um texto para homenagear nossos queridos animais que nos acompanham e nos amam incondicionalmente. O cachorro, pela sua proporção numérica nos lares, será tratado como o símbolo deste sentimento, mas esse texto não se restringe apenas a este laço fraterno entre humanos e animais.

Ao começar a pesquisar sobre o tema e a pensar em como escreveria esse texto, me deparei com uma realidade ainda mais importante de se falar, além de uma singela homenagem.

Se enfrentamos o tabu de falar sobre o luto dos nossos entes queridos, multiplique esse sentimento algumas vezes e encontrará o desconforto de quem perdeu um animal mas não se sente confortável em expressar sua dor naturalmente.

A frase “era só um cachorro”, “um gato”, “um passarinho” e etc é o que normalmente escutamos quando pessoas ao nosso redor tentam desastradamente nos confortar ou consideram que passamos do limite com nossa dor. Mas que limite é esse que impomos a nós mesmos e aos outros?

A psicóloga Nazaré Jacobucci, especialista em luto, escreveu um artigo publicado em seu site Perdas e Luto, onde entrevistou a Doutora em Psicologia Déria de Oliveira, cuja tese de Doutorado teve como tema: “O luto pela morte do animal de estimação e o reconhecimento da perda”. A primeira conclusão é a de que existe um sentimento de luto não autorizado pela perda de um animal. Não se pode chorar demasiadamente ou se entristecer por muito tempo e por aí seguem os vários protocolos “anti-luto” que estamos acostumados a enfrentar em nossa sociedade.

No entanto, Dra Déria constata que as pessoas passam por um processo parecido de luto, com sentimentos e sensações semelhantes aos da perda de um humano, como negação, culpa, ansiedade de separação, raiva e entorpecimento entre outros.

Cerca de 52% da amostra estudada afirmou que o luto pela morte de um animal de estimação dever ser comedido e que sentem-se pressionados a manter sua rotina social inalterada, pois a morte do animal não justifica tamanha dor. Na contramão desse sentimento, se perguntarmos às pessoas o que representa um animal doméstico em suas famílias, não faltarão elogios como: “o cão é o melhor amigo do homem”, “não existe amor mais incondicional do que este”, “meu gato é como um integrante da família”, “é mais que um amigo, é um filho”.

Se somos tão abertos a legitimar esse sentimento, porque nos fechamos, minimizamos e julgamos o sofrimento por eles?

Cada vez mais encontramos casais que optaram por não ter filhos e adotaram seus animais como seus legítimos “herdeiros”. A guarda compartilhada destes é freqüente atualmente, assim como clínicas veterinárias nos Estados Unidos oferecendo atendimento psicológico a donos enlutados. Enfim, acontece um movimento crescente de validação da própria vida do animal e de sua importância no contexto emocional de seus donos.

E para as crianças? Para elas, esse contato é ainda mais significativo. Muito provavelmente a morte de um animal doméstico será a primeira experiência de perda que essa criança viverá mas felizmente, nesses casos, parece que nós, adultos, damos uma TRÉGUA a regras e padrões de comportamento e autorizamos nossos pequenos a vivenciarem essa dor. Mas até que ponto? Estamos mesmo preparados para dar a elas o amparo que precisam? Deixamos o luto seguir seu processo ou rapidamente tentamos preencher esse vazio para proteger nossas crianças do sofrimento? Quem já não comprou rapidamente um outro animal para substituir o que partiu, na melhor das intenções, mas sem pensar que talvez toda a família precisasse passar pelo processo de despedida daquele bichinho que por tantos anos os recebeu com alegria, amor, carinho e companheirismo?

O Luto, independentemente de qual seja, precisa ser vivido e expressado com naturalidade e sem constrangimento.

Essa reflexão me fez lembrar do filme “A corrente do bem”. Talvez valha um paralelo aqui com o sentimento de solidariedade na dor. Todos nós passaremos por perdas e cada uma delas terá o tamanho do amor que sentimos por quem partiu, e não o tamanho que a sociedade estabeleceu para aquele tipo de dor. Se fizermos um carinho e mostrarmos empatia por aquele amigo que está sofrendo, ele certamente lembrará desse afeto e acolherá da mesma forma a próxima pessoa que passar pela mesma situação, e assim vamos aos poucos desconstruindo o tabu para criar uma forma diferente de enfrentar nossos medos e ajudar quem se sente tão sozinho nesta dor.

As crianças, sempre tão sensíveis e cheias de sabedoria, podem nos ensinar muito sobre esse processo. Veja a seguir dois relatos delicados sobre a vivência do luto de animais de estimação.

Histórias de amor

Luna e Vênus

“Eu senti muita tristeza quando a Vênus morreu porque ela era muito ligada em mim e eu amava muito ela. A tristeza era tanta que eu nem sei explicar, mas eu senti muita dor no peito e fiquei lembrando dos momentos bons que nós passamos juntas. A Vênus não era só a minha cachorrinha, era uma cachorra especial, mais do que especial, era uma cachorra que me seguia por todo lugar que eu ia. Sempre estava de olho em mim e ela era a melhor e única cachorra. Ela cuidava de mim sempre. Eu fico pensando e lembrando dos momentos bons que nós passamos juntas e na escola minha tristeza aliviava um pouco porque eu tinha que prestar atenção na aula.”



Maria Eduarda e Bela

“Quando a Bela morreu eu senti um aperto no coração e fiquei muito triste. Mas foi bom que ela viveu bastante porque os cachorros deixam a casa mais alegre. Eu sentia um amor muito grande por ela. No dia que ela morreu acendi uma vela para ela e fiquei imaginando como seria nossa casa sem ela, mas um tempo depois eu fiquei muito feliz porque ganhei o Chico. Quando minha Bisa morreu eu senti parecido, um pouco mais difícil porque eu era bem próxima dela e ela era muito legal comigo. Sinto muita saudades das duas, mas que bom que elas não sofreram.”



 Por Fernanda Ferraz Figueiredo 24/11/2016

Referência em :
http://vamosfalarsobreoluto.com.br/2016/11/24/era-so-um-cachorro/

Acesso em: 24/11/2016


Colaborou Tássia H. de Deus
Coordenadora do Serviço Social Boa Vida
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Como a vida muda com a morte dos pais !!!





Depois da morte dos pais, a vida muda muito. Enfrentar a orfandade, inclusive para pessoas adultas, é uma experiência surpreendente. No fundo de todas as pessoas sempre continua vivendo aquela criança que pode correr para a mãe ou o pai para se sentir protegido. Mas quando eles vão embora, essa opção desaparece para sempre.

Você irá deixar de vê-los, não por uma semana, nem por um mês, e sim pelo resto da vida. Os pais foram as pessoas que nos trouxeram ao mundo e com quem você compartilhou o mais intimo e frágil. Já não estarão presentes aqueles seres pelos quais, em grande parte, chegamos a ser o que somos.

“Quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, este fica preso para sempre.”-Gabriel García Márquez-



A morte dos pais: entre falar dela e vivê-la, existe um grande abismo

Nunca estamos plenamente preparados para enfrentar a morte, ainda mais quando se trata da morte dos pais. É uma grande adversidade que dificilmente pode ser superada totalmente. Normalmente, o máximo que se consegue é assumi-la e conviver com ela. Para superá-la, pelo menos em teoria, deveríamos entendê-la, mas a morte, no sentido estrito, é totalmente incompreensível. É um dos grandes mistérios da existência: talvez o maior.

Obviamente, a forma como assimilamos as perdas tem muito a ver com a forma como aconteceram. Uma morte das chamadas por “causas naturais” é dolorosa, mas um acidente ou um assassinato é muito mais. Se a morte tiver sido precedida por uma longa doença, a situação é muito diferente de quando acontece de forma súbita.

Também influencia o tempo entre a morte de um de outro: se houve pouco tempo, o luto será mais complexo. Se ao contrário, o lapso for mais extenso, certamente a pessoa estará um pouco melhor para aceitá-lo.

Não apenas é o corpo que se vai, e sim todo um universo. Um mundo feito de palavras, de carícias, de gestos. Inclusive, de repetidos conselhos que às vezes irritavam um pouco e de “manias” que nos faziam sorrir ou esfregar a cabeça porque os reconhecemos nelas. Agora começam a se fazer sentir ausentes de uma forma difícil de lidar.




A morte não avisa. Pode ser presumida, mas nunca anuncia exatamente quando irá chegar. Tudo se sintetiza em um instante e esse instante é categórico e determinante: irreversível. Tantas experiências vividas ao lado deles, boas e ruins, se estremecem de repente e ficam somente em lembranças. O ciclo se cumpriu e é hora de dizer adeus.

“O que está, sem estar"

Em geral, pensamos que esse dia nunca chegará, até que chega e se faz real. Ficamos em estado de choque e vemos apenas uma caixão, com o corpo rígido e quieto, que não fala e não se move. Que está ali, sem estar ali…


Porque com a morte começam a ser compreendidos muitos aspectos da vida das pessoas falecidas. Aparece uma compreensão mais profunda. Talvez o fato de não ter as pessoas queridas presentes suscita em nós o entendimento sobre o porquê de muitas atitudes até então incompreensíveis, contraditórias ou mesmo repulsivas.

Por isso, a morte pode trazer consigo um sentimento de culpa frente a aquele que morreu. É preciso lutar contra esse sentimento, já que não acrescenta nada e afunda em mais tristeza, sem poder remediar nada. Para que se culpar se você não cometeu nenhum erro? Somos seres humanos e acompanhando essa despedida, precisa existir um perdão: do que se vai para com aquele que fica ou do que fica para com aquele que se vai.

Aproveite-os enquanto puder: não estarão aí para sempre

Quando os pais morrem, independentemente da idade, as pessoas costumam experimentar um sentimento de abandono. É uma morte diferente das outras. Por sua vez, algumas pessoas se negam a dar a importância que o fato merece, como mecanismo de defesa, em forma de uma negação encoberta. Mas esses lutos não resolvidos retornam em forma de doença, de fadiga, de irritabilidade ou sintomas de depressão.

Os pais são o primeiro amor. Não importa quantos conflitos ou diferenças tenham existido com eles: são seres únicos e insubstituíveis no mundo emocional. Mesmo sendo autônomos e independentes, mesmo que o nosso relacionamento com eles tenha sido tortuoso. Quando já não estão, passa a existir uma sensação de “nunca mais” para uma forma de proteção e de apoio que, de uma forma ou de outra, sempre esteve ali.


Referência em :


Acesso em 10/11/2016


Sugestão de leitura oferecida pela Elke H. Fonseca
Supervisora Administrativa

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

LEITURA OBRIGATÓRIA!

LEITURA OBRIGATÓRIA

* VOCÊ RESPEITA O LUTO DO OUTRO?
* E O SEU LUTO É RESPEITADO?
* RESPEITADO POR QUEM MESMO?

Com o objetivo de compartilhar com nossos seguidores do blog textos e artigos que consideramos importantes sobre questões de perda, luto e morte; ora textos e publicações de caráter informativo, ora textos que provocam reflexão mais profunda e aquela parada para avaliar a vida, hoje compartilhamos um dos artigos que consideramos LEITURA OBRIGATÓRIA.
A psiquiatra Ana Célia Rodrigues de Souza traz de uma forma elaborada, reflexões e até inquietações sobre: O direito ao luto sem pressa.

Fique à vontade para comentar o texto. Boa leitura!!!!



O DIREITO AO LUTO SEM PRESSA
Por Ana Célia Rodrigues de Souza

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Ao longo destes últimos vinte e cinco anos, venho praticando meu ofício de ouvir histórias de sobreviventes de processos de mortes. Pessoas que buscam ajuda para lidar com suas perdas, concretas ou metafóricas: a morte de uma pessoa significativa, tentativas de suicídio sem a consumação da morte, relacionamentos amorosos desfeitos, mudanças no status financeiro, frustrações de desejos não realizados, aposentadorias compulsórias, mudanças abruptas dos papéis sociais, a saída de casa dos filhos crescidos, o fim de cada etapa da vida – da infância, da adolescência, da “adultice” fértil acompanhada de produtividade quantitativa – ou mesmo, o nascimento do primeiro filho com a perda da “solteirice”; além disso, a perda da vitalidade física, seja por alguma patologia, ou pela própria senescência. Keleman e Kovács denominam estas vivências de “pequenas mortes”, enquanto Yalom de “experiências de despertar” (perdas seguidas de grandes transformações na vida). E um encontro com esses ‘eventos’ demanda um tempo de elaboração: o luto.

Na atualidade, nesta nossa “pós-modernidade líquida” [denominação que tomo emprestada de Zygmunt Bauman todas estas vivências de perdas – ou o que nós analistas junguianos chamamos de mortes simbólicas – são agrupadas pelo senso comum em um único termo: ‘depressão’, que nos diz muito pouco sobre estas experiências demasiadamente humanas, constituindo-se de um conjunto de sintomas selecionados para um rótulo retirado dos manuais diagnósticos e estatísticos de transtornos mentais (DSMs). Estes códigos diagnósticos se originaram por uma demanda específica de padronização da linguagem para a pesquisa psiquiátrica e acabaram, a meu ver, sendo mal utilizados na prática clínica.
[...] De modo geral, o ‘deprimir-se’ é considerado desagradável e não desejável, assim como a morte. No entanto, parece fundamental para que se possa superar ou ressignificar a dor, encarar o sofrimento e vivenciar lutos, não apenas pela morte de pessoas queridas, como também em razão das “pequenas mortes”.
Moore denomina estes processos de “as noites escuras da alma” – expressão do místico e poeta espanhol São João da Cruz (1542-1591) – e os considera de grande importância para as transformações necessárias às demandas do cotidiano, dizendo-nos:
“Alguém que passa por uma noite escura pode dizer: “Ajude-me. Estou deprimido. Tire-me daqui”. Mas como você poderia tirá-la de um processo natural de mudança? Como pode curar alguém da autotransformação? O problema é que não pensamos mais em termos de passagens e transições.”

Atualmente, este “tire-me daqui” implica numa expectativa do paciente “impaciente” [termo sugerido pelo Prof. Dr. Dario Birolini no prefácio do livro “O Doente Imaginado”, de Marco Bobbio de que seu sofrimento só poderá ser resolvido com ‘uma bala mágica’ que os retire dessa ‘noite escura’ e rapidamente, “influenciados pelo “doutor Google” e por notícias divulgadas em jornais e revistas, claramente motivadas por interesses econômicos ou pessoais”. E de modo geral, acolher pacientemente a pessoa, ouvir atenta e respeitosamente o relato de suas dores, com empatia e compaixão, com o intuito de ajudá-la a elaborar sua perda, não satisfaz os ‘apressados’, que sentem como se nada fosse feito, e a consulta não tivesse valor por não obterem a receita do medicamento desejado e/ou a solicitação de muitos exames. A meu ver, um grande equívoco, aí está a pedra filosofal do ofício do psiquiatra: saber ouvir, saber o que e quando falar e calar. Tarefa nada fácil e, não só do psiquiatra, mas de todos os médicos de qualquer especialidade, ou mesmo de qualquer ser humano!

O processo psíquico de se refazer a partir das perdas, e não só das pessoas significativas, é um momento de afetos confusos, muitas vezes, paradoxais: de alívio e culpa, ainda acompanhado por “dor, tristeza, pesar, desgosto, angústia, entorpecimento, exaustão, remorso, (‘desejo de’) solidão”, entre outros, conforme relata ter sentido Butler após a morte de seus pais. É um momento de se experimentar as ausências e da oportunidade de se retomar a vida, compreendendo aspectos diferentes de nós mesmos, que só notamos após estas vivências.

[...] Saber lidar com a morte talvez possibilite, como dizem vários autores, saber viver a vida! Eros (a energia de vida) e Tânatos (a energia de morte) estão constantemente medindo forças dentro de nós. Temos células nascendo e morrendo a todo o momento. O morrer evidencia que não temos controle frente à nossa totalidade. A vida implica um movimento constante de abertura, a eterna renovação, um fluxo contínuo. Mas, constante, contínuo não significa rapidez, pois há que se respeitar o tempo apropriado para a transformação psíquica de cada um.

Porém, a insensibilidade, a intolerância, a dificuldade de lidar com a dor física ou psíquica, as mudanças de valores culturais, a pressa, a perda de contextos, a falta de tempo e de paciência com e das pessoas, a supremacia do biológico ao biográfico do ser, a hipervalorização da materialidade, do racionalismo, da objetividade, e o abuso de psicofármacos, que promovem uma anestesia e bloqueio da capacidade de reflexão crítica sobre questões fundamentais da vida – como a morte, por exemplo, que é negada, dissociada – além da anestesia promovida pelo consumismo desmedido, incapacita-nos ainda mais para esta vivência de ser mortal.

A pressa da atualidade, pressa de ter tudo na hora, pressa de resolver os problemas, as dores e os sofrimentos, esta sim é a verdadeira inimiga a ser combatida e não a morte.
[...] E muitas vezes, a pressa começa num momento muito delicado e íntimo. Quando temos um parente que morre no hospital ou outra instituição, nem se dá um tempo para que os familiares, amigos e cuidadores possam se despedir junto ao corpo – uma atitude que auxilia algumas pessoas a se organizarem emocionalmente após a notícia – pois o leito precisa estar disponível rapidamente, entre outros procedimentos logísticos das instituições (McCullough , 2009).
Para Pessini ,
[…] vivemos em um momento cultural sócio-histórico, no âmbito das terapias de saúde dominado pela analgesia, em que fugir da dor é o caminho racional e normal. À medida que a dor e a morte são absorvidas pelas instituições de saúde, as capacidades de enfrentar a dor, de inseri-la no ser e de vivê-la são retiradas da pessoa. Ao ser tratadas por drogas, a dor é vista medicamente como um barulho disfuncional nos circuitos fisiológicos, sendo despojada de sua dimensão existencial subjetiva. Essa mentalidade retira do sofrimento seu significado íntimo e pessoal, e transforma a dor em problema técnico.

[...]Retornando ao processo de elaboração das perdas, isto é, o luto, os processos necessitam de tempo. Assim como um processo de cura de uma ferida física precisa de tempo, assim como tudo demanda tempo para recuperar seu equilíbrio, a alma também precisa de tempo para cicatrizar. As cicatrizes, por vezes, até continuam doendo, incomodando, mas podemos ressignificá-las quando encontramos sentido no sofrimento e, além disso, estas marcas de momentos tão importantes de nossa existência nos dão identidade.

Antes de rotular com qualquer diagnóstico e medicar – o que geralmente é feito na primeira consulta – é necessário muito tempo de observação: da pessoa, de sua história de vida, de seus valores, como também, da compreensão da ‘depressão’ – ou, como utilizo aqui, a ‘vivência de perda seguida de luto’ – como uma expressão natural da psique (alma), que nos transportaria para um lugar simbólico promotor de reflexões sobre nossos valores e estilo de vida. Há muito trabalho a ser feito pelos sobreviventes! Muitas peças de si mesmo para serem reencaixadas.

Quando discutimos sobre a questão se um período de luto superior a duas semanas já deveria ser diagnosticado como doença, como está proposto no DSM-V, torna-se duvidoso se realmente estamos dispostos a dar o tempo necessário para nossas psiques se adaptarem às mudanças importantes, como à perda de pessoas significativas em nossas vidas, por exemplo. A psique está confusa, aflita e surgem novos problemas com os quais talvez não saibamos lidar neste estado ferido.
E é nesta situação que esperam que voltemos a funcionar “normalmente” dentro de duas semanas? Luto não é doença e sim, uma reação normal e sensata frente à confrontação com a morte e que ajuda a lidar com a perda, reorganizar-se, harmonizar-se; é uma das experiências existenciais mais fundamentais (Kast).”
No entanto, do modo como as consultas psiquiátricas têm sido realizadas, seguindo os manuais diagnósticos e focando na tecnologia, ficamos obrigados a fingir que nada aconteceu, nada mudou e a vida deve continuar; não se pode chorar, ficar triste, ou perder a alegria de viver. “Com o crescimento do componente científico, a medicina perdeu o componente humano. Fala-se aos pacientes com números e não mais com o coração” (Bobbio).

Dentro desta perspectiva é que o movimento SlowMedicine – ou a medicina sem pressa – pode nos ajudar a promover um resgate de uma prática psiquiátrica mais humanizada. O movimento enfatiza o cuidado focado no paciente, com a escuta cuidadosa e respeitosa de sua história e seus valores. Apresenta como “eixo essencial do exercício da medicina: uma relação médico-paciente” (Birolini) sólida, criando laços estreitos e duradouros. Considera que o tempo e a atenção ao paciente melhoram a tomada de decisão. Cultiva a arte tanto de não intervir na autonomia e autocuidados, como da sabedoria da observação clínica. Tem como foco a humanização e não a tecnologia. E por fim, defende a aceitação do inevitável. Estes são princípios dos quais a psiquiatria da atualidade parece encontrar-se bastante carente.
E como diz Rubem Alves : “Os que bebem juntos da mesma fonte de tristeza descobrem, surpresos, que a tristeza partilhada se transmuta em comunhão”.

Referência

SOUZA,  Ana Célia Rodrigues. O direito ao luto sem pressa, 2016. Disponível em:  <http://slowmedicine.com.br/o-direito-ao-luto-sem-pressa/>. Acesso em: 03 de nov. 2016.


Colaborou Patrícia dos Santos
Psicóloga do Plano Boa Vida
E-mail: patricia.santos@boavida.com.br