segunda-feira, 7 de novembro de 2016

LEITURA OBRIGATÓRIA!

LEITURA OBRIGATÓRIA

* VOCÊ RESPEITA O LUTO DO OUTRO?
* E O SEU LUTO É RESPEITADO?
* RESPEITADO POR QUEM MESMO?

Com o objetivo de compartilhar com nossos seguidores do blog textos e artigos que consideramos importantes sobre questões de perda, luto e morte; ora textos e publicações de caráter informativo, ora textos que provocam reflexão mais profunda e aquela parada para avaliar a vida, hoje compartilhamos um dos artigos que consideramos LEITURA OBRIGATÓRIA.
A psiquiatra Ana Célia Rodrigues de Souza traz de uma forma elaborada, reflexões e até inquietações sobre: O direito ao luto sem pressa.

Fique à vontade para comentar o texto. Boa leitura!!!!



O DIREITO AO LUTO SEM PRESSA
Por Ana Célia Rodrigues de Souza

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Ao longo destes últimos vinte e cinco anos, venho praticando meu ofício de ouvir histórias de sobreviventes de processos de mortes. Pessoas que buscam ajuda para lidar com suas perdas, concretas ou metafóricas: a morte de uma pessoa significativa, tentativas de suicídio sem a consumação da morte, relacionamentos amorosos desfeitos, mudanças no status financeiro, frustrações de desejos não realizados, aposentadorias compulsórias, mudanças abruptas dos papéis sociais, a saída de casa dos filhos crescidos, o fim de cada etapa da vida – da infância, da adolescência, da “adultice” fértil acompanhada de produtividade quantitativa – ou mesmo, o nascimento do primeiro filho com a perda da “solteirice”; além disso, a perda da vitalidade física, seja por alguma patologia, ou pela própria senescência. Keleman e Kovács denominam estas vivências de “pequenas mortes”, enquanto Yalom de “experiências de despertar” (perdas seguidas de grandes transformações na vida). E um encontro com esses ‘eventos’ demanda um tempo de elaboração: o luto.

Na atualidade, nesta nossa “pós-modernidade líquida” [denominação que tomo emprestada de Zygmunt Bauman todas estas vivências de perdas – ou o que nós analistas junguianos chamamos de mortes simbólicas – são agrupadas pelo senso comum em um único termo: ‘depressão’, que nos diz muito pouco sobre estas experiências demasiadamente humanas, constituindo-se de um conjunto de sintomas selecionados para um rótulo retirado dos manuais diagnósticos e estatísticos de transtornos mentais (DSMs). Estes códigos diagnósticos se originaram por uma demanda específica de padronização da linguagem para a pesquisa psiquiátrica e acabaram, a meu ver, sendo mal utilizados na prática clínica.
[...] De modo geral, o ‘deprimir-se’ é considerado desagradável e não desejável, assim como a morte. No entanto, parece fundamental para que se possa superar ou ressignificar a dor, encarar o sofrimento e vivenciar lutos, não apenas pela morte de pessoas queridas, como também em razão das “pequenas mortes”.
Moore denomina estes processos de “as noites escuras da alma” – expressão do místico e poeta espanhol São João da Cruz (1542-1591) – e os considera de grande importância para as transformações necessárias às demandas do cotidiano, dizendo-nos:
“Alguém que passa por uma noite escura pode dizer: “Ajude-me. Estou deprimido. Tire-me daqui”. Mas como você poderia tirá-la de um processo natural de mudança? Como pode curar alguém da autotransformação? O problema é que não pensamos mais em termos de passagens e transições.”

Atualmente, este “tire-me daqui” implica numa expectativa do paciente “impaciente” [termo sugerido pelo Prof. Dr. Dario Birolini no prefácio do livro “O Doente Imaginado”, de Marco Bobbio de que seu sofrimento só poderá ser resolvido com ‘uma bala mágica’ que os retire dessa ‘noite escura’ e rapidamente, “influenciados pelo “doutor Google” e por notícias divulgadas em jornais e revistas, claramente motivadas por interesses econômicos ou pessoais”. E de modo geral, acolher pacientemente a pessoa, ouvir atenta e respeitosamente o relato de suas dores, com empatia e compaixão, com o intuito de ajudá-la a elaborar sua perda, não satisfaz os ‘apressados’, que sentem como se nada fosse feito, e a consulta não tivesse valor por não obterem a receita do medicamento desejado e/ou a solicitação de muitos exames. A meu ver, um grande equívoco, aí está a pedra filosofal do ofício do psiquiatra: saber ouvir, saber o que e quando falar e calar. Tarefa nada fácil e, não só do psiquiatra, mas de todos os médicos de qualquer especialidade, ou mesmo de qualquer ser humano!

O processo psíquico de se refazer a partir das perdas, e não só das pessoas significativas, é um momento de afetos confusos, muitas vezes, paradoxais: de alívio e culpa, ainda acompanhado por “dor, tristeza, pesar, desgosto, angústia, entorpecimento, exaustão, remorso, (‘desejo de’) solidão”, entre outros, conforme relata ter sentido Butler após a morte de seus pais. É um momento de se experimentar as ausências e da oportunidade de se retomar a vida, compreendendo aspectos diferentes de nós mesmos, que só notamos após estas vivências.

[...] Saber lidar com a morte talvez possibilite, como dizem vários autores, saber viver a vida! Eros (a energia de vida) e Tânatos (a energia de morte) estão constantemente medindo forças dentro de nós. Temos células nascendo e morrendo a todo o momento. O morrer evidencia que não temos controle frente à nossa totalidade. A vida implica um movimento constante de abertura, a eterna renovação, um fluxo contínuo. Mas, constante, contínuo não significa rapidez, pois há que se respeitar o tempo apropriado para a transformação psíquica de cada um.

Porém, a insensibilidade, a intolerância, a dificuldade de lidar com a dor física ou psíquica, as mudanças de valores culturais, a pressa, a perda de contextos, a falta de tempo e de paciência com e das pessoas, a supremacia do biológico ao biográfico do ser, a hipervalorização da materialidade, do racionalismo, da objetividade, e o abuso de psicofármacos, que promovem uma anestesia e bloqueio da capacidade de reflexão crítica sobre questões fundamentais da vida – como a morte, por exemplo, que é negada, dissociada – além da anestesia promovida pelo consumismo desmedido, incapacita-nos ainda mais para esta vivência de ser mortal.

A pressa da atualidade, pressa de ter tudo na hora, pressa de resolver os problemas, as dores e os sofrimentos, esta sim é a verdadeira inimiga a ser combatida e não a morte.
[...] E muitas vezes, a pressa começa num momento muito delicado e íntimo. Quando temos um parente que morre no hospital ou outra instituição, nem se dá um tempo para que os familiares, amigos e cuidadores possam se despedir junto ao corpo – uma atitude que auxilia algumas pessoas a se organizarem emocionalmente após a notícia – pois o leito precisa estar disponível rapidamente, entre outros procedimentos logísticos das instituições (McCullough , 2009).
Para Pessini ,
[…] vivemos em um momento cultural sócio-histórico, no âmbito das terapias de saúde dominado pela analgesia, em que fugir da dor é o caminho racional e normal. À medida que a dor e a morte são absorvidas pelas instituições de saúde, as capacidades de enfrentar a dor, de inseri-la no ser e de vivê-la são retiradas da pessoa. Ao ser tratadas por drogas, a dor é vista medicamente como um barulho disfuncional nos circuitos fisiológicos, sendo despojada de sua dimensão existencial subjetiva. Essa mentalidade retira do sofrimento seu significado íntimo e pessoal, e transforma a dor em problema técnico.

[...]Retornando ao processo de elaboração das perdas, isto é, o luto, os processos necessitam de tempo. Assim como um processo de cura de uma ferida física precisa de tempo, assim como tudo demanda tempo para recuperar seu equilíbrio, a alma também precisa de tempo para cicatrizar. As cicatrizes, por vezes, até continuam doendo, incomodando, mas podemos ressignificá-las quando encontramos sentido no sofrimento e, além disso, estas marcas de momentos tão importantes de nossa existência nos dão identidade.

Antes de rotular com qualquer diagnóstico e medicar – o que geralmente é feito na primeira consulta – é necessário muito tempo de observação: da pessoa, de sua história de vida, de seus valores, como também, da compreensão da ‘depressão’ – ou, como utilizo aqui, a ‘vivência de perda seguida de luto’ – como uma expressão natural da psique (alma), que nos transportaria para um lugar simbólico promotor de reflexões sobre nossos valores e estilo de vida. Há muito trabalho a ser feito pelos sobreviventes! Muitas peças de si mesmo para serem reencaixadas.

Quando discutimos sobre a questão se um período de luto superior a duas semanas já deveria ser diagnosticado como doença, como está proposto no DSM-V, torna-se duvidoso se realmente estamos dispostos a dar o tempo necessário para nossas psiques se adaptarem às mudanças importantes, como à perda de pessoas significativas em nossas vidas, por exemplo. A psique está confusa, aflita e surgem novos problemas com os quais talvez não saibamos lidar neste estado ferido.
E é nesta situação que esperam que voltemos a funcionar “normalmente” dentro de duas semanas? Luto não é doença e sim, uma reação normal e sensata frente à confrontação com a morte e que ajuda a lidar com a perda, reorganizar-se, harmonizar-se; é uma das experiências existenciais mais fundamentais (Kast).”
No entanto, do modo como as consultas psiquiátricas têm sido realizadas, seguindo os manuais diagnósticos e focando na tecnologia, ficamos obrigados a fingir que nada aconteceu, nada mudou e a vida deve continuar; não se pode chorar, ficar triste, ou perder a alegria de viver. “Com o crescimento do componente científico, a medicina perdeu o componente humano. Fala-se aos pacientes com números e não mais com o coração” (Bobbio).

Dentro desta perspectiva é que o movimento SlowMedicine – ou a medicina sem pressa – pode nos ajudar a promover um resgate de uma prática psiquiátrica mais humanizada. O movimento enfatiza o cuidado focado no paciente, com a escuta cuidadosa e respeitosa de sua história e seus valores. Apresenta como “eixo essencial do exercício da medicina: uma relação médico-paciente” (Birolini) sólida, criando laços estreitos e duradouros. Considera que o tempo e a atenção ao paciente melhoram a tomada de decisão. Cultiva a arte tanto de não intervir na autonomia e autocuidados, como da sabedoria da observação clínica. Tem como foco a humanização e não a tecnologia. E por fim, defende a aceitação do inevitável. Estes são princípios dos quais a psiquiatria da atualidade parece encontrar-se bastante carente.
E como diz Rubem Alves : “Os que bebem juntos da mesma fonte de tristeza descobrem, surpresos, que a tristeza partilhada se transmuta em comunhão”.

Referência

SOUZA,  Ana Célia Rodrigues. O direito ao luto sem pressa, 2016. Disponível em:  <http://slowmedicine.com.br/o-direito-ao-luto-sem-pressa/>. Acesso em: 03 de nov. 2016.


Colaborou Patrícia dos Santos
Psicóloga do Plano Boa Vida
E-mail: patricia.santos@boavida.com.br

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