quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Acolha a sua dor ... relato da namorada que perdeu o namorado num acidente aéreo em 2009




O acidente com o time da Chapecoense comoveu o mundo. Sei que dói e vai doer por muito mais tempo do que a cobertura e a comoção nacional. Diante de uma outra tragédia, aprendi que era preciso acolher a dor com paciência. As palavras do poeta Rainer Maria Rilke me fizeram companhia naqueles tempos

Era uma outra manhã, primeiro dia de Junho de 2009. Saí bem cedo de casa para fazer a vistoria do carro e, ainda no trânsito, meu celular tocou. Uma amiga me perguntava em qual vôo o Leo, meu namorado, havia embarcado na noite anterior. Era o 447 da Air France, que ia do Rio de Janeiro a Paris levando 228 pessoas e seus sonhos, e que caiu destruindo a todos que amavam esses passageiros.

Minutos depois o Brasil parou para narrar tamanha tristeza. Ainda não havia Facebook, mas as TVs, os jornais, as revistas, os sites e o Orkut fizeram seu papel. Foram semanas de cobertura pela imprensa, meses de busca pelos destroços e corpos, anos até a finalização dos processos burocráticos e investigações.

O acidente se tornou um espetáculo público, mas nossa dor foi absolutamente particular.

Eu pouco acompanhei o que era dito e exibido: não me interessava o acidente, eu tentava digerir a notícia de que ele havia sido subtraído subitamente de nossas vidas. O barulho de dentro já era grande demais e escolhi ficar alheia às matérias investigativas, essas que vemos o tempo todo na cobertura da imprensa. A pouca energia que tive nas primeiras semanas iam para os cuidados pessoais, as visitas, alguns telefonemas e emails, as leituras e a escrita. Os familiares e amigos do Leo eram meus pares, e não tive contato com familiares de outras vítimas.

Mais de sete anos se passaram e há uma semana penso se tenho algo a dizer às famílias e aos amigos da tragédia com o time da Chapecoense. Cada frase que eu escrevo é deletada na sequência. Só sei que dói e vai doer por muito mais tempo do que a cobertura e a comoção nacional.

Gostaria que minhas palavras tivessem força de abraço, mas não sou boa escritora para tanto. Então resolvi pegar algumas emprestadas de um poeta de verdade, que sem saber me ajudou imensamente nos meus momentos mais difíceis e me inspirou a acolher com paciência a dor que sentia. Palavras do Rainer Maria Rilke em ‘Cartas a um Jovem Poeta’, livro que recebi de presente de uma querida amiga de projeto e de vida e que me acompanha há muitos e muitos anos.

O livro é um clássico encontrado em qualquer livraria física ou online. Não é sobre o luto, mas é sobre a vida e a coragem que ela nos pede. E, também, sobre a importância de aceitarmos a passagem da tristeza e seu poder transformador em nossas vidas.

Separei alguns trechos da ‘Carta de 12 de Agosto’, a minha preferida, para dividir com quem precisar de força e colo. Que vocês sejam cercados de amor e cuidados. Sinto muito.


“Borgeby Gard, Flàdie, Suécia,

12 de agosto de 1904

Quero conversar de novo com o senhor por um momento, meu caro Kappus, embora não possa dizer quase nada que o ajude, quase nada de útil. O senhor teve muitas e grandes tristezas que passaram. E diz que mesmo esta passagem foi difícil e perturbadora. Mas, por favor, avalie se essas grandes tristezas não atravessaram o seu íntimo, se muita coisa no senhor não se transformou, se algum lugar, algum ponto do seu ser não se modificou enquanto o senhor estava triste. Só são ruins e perigosas as tristezas que carregamos em meio às pessoas para dominá-las; como doenças que são tratadas de modo superficial e leviano, elas apenas recuam e, após uma pequena pausa, irrompem ainda mais terríveis. Essas tristezas se acumulam no íntimo e constituem a vida, constituem uma vida não vivida, desdenhada, perdida, de que se pode morrer. Se nos fosse possível ver além do alcance do nosso saber, e ainda um pouco além da obra preparatória do nosso pressentimento, talvez suportássemos as nossas tristezas com mais confiança do que nossas alegrias. Pois elas são os instantes em que algo de novo penetrou em nós, algo desconhecido; nossos sentimentos se calam em um acanhamento tímido, tudo em nós recua, surge uma quietude, e o novo, que ninguém conhece, é encontrado bem ali no meio, em silêncio.

Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão, que sentimos como uma paralisia porque não ouvimos ecoar a vida dos nossos sentimentos que se tornaram estranhos para nós. Isso porque estamos sozinhos com o estranho que entrou em nossa casa, porque tudo o que era confiável e habitual nos foi retirado por um instante, porque estamos no meio de uma transição, em um ponto no qual não podemos permanecer. É por isso que a tristeza também passa: o novo em nós, o acréscimo, entrou em nosso coração, alcançou seu recanto mais íntimo e mesmo ali ele já não está mais – está no sangue. E não percebemos o que houve. Seria fácil nos fazer acreditar que nada aconteceu, no entanto nos transformamos, como uma casa se transforma quando chega um hóspede. Não somos capazes de dizer quem chegou, talvez nunca cheguemos a saber, mas vários sinais indicam que o futuro entra em nós dessa maneira, para se transformar em nós muito antes de acontecer.

(…)

O futuro permanece firme, caro senhor Kappus, mas nós nos movemos no espaço infinito.

(…)

Assim, não é preciso se assustar, meu caro Kappus, quando uma tristeza se ergue à sua frente, tão grande como o senhor nunca viu; quando uma inquietação passa por sobre as suas mãos e perpassa todas as suas ações, como a luz e as sombras das nuvens. É preciso pensar que acontece algo com o senhor, que a vida não o esqueceu, que ela segura sua mão e não o deixará cair. Por que o senhor pretende excluir de sua vida qualquer inquietude, qualquer dor, qualquer melancolia, sem saber o que essas circunstâncias realizam? Por que perseguir a si mesmo com estas perguntas: de onde pode vir tudo isso e para onde vai?

(…)

Agora acontece tanta coisa em seu íntimo, meu caro Kappus. É preciso ter paciência como um doente e ter confiança como um convalescente, pois talvez o senhor seja ambas as coisas. Mais ainda: o senhor também é o médico que tem de tratar de si mesmo. Mas em toda doença há muitos dias em que o médico não pode fazer nada além de esperar. E é isso, mais do que qualquer outra coisa, que o senhor, por ser seu próprio médico, precisa fazer agora.”



 Por Mariane Maciel


Referência em :

http://vamosfalarsobreoluto.com.br/2016/12/05/acolha-a-sua-dor/

Acesso em 06/12/2016.

Colaborou: Tássia H. de Deus.
Coordenadora do Serviço Social Boa Vida
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br

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