quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Por que a morte de um animal de estimação dói igual à de um familiar?


Quando o nosso cão ou gato morre, sentimo-nos tão vazios como se tivéssemos perdido um filho, um irmão ou um de nossos pais. Experimentamos uma dor imensa que não se pode comparar a nada e que é difícil de explicar. Neste artigo, contaremos por que a morte de um animal de estimação dói igual à de um familiar.

A dor pela morte de nosso animal de estimação




Aqueles que amam os animais sabem que não existe uma dor maior do que a de perdê-los. Os cães e os gatos passam muitos anos ao nosso lado para que a morte deles nos seja indolor. Só o ato de pensarmos que algum dia eles morrerão, nos dá um nó na garganta. Entretanto, temos que levar em conta que cedo ou tarde isso acontecerá e que é preciso que estejamos preparados.

A conexão que experimentamos com os animais de estimação é tão grande que não podemos imaginar a vida sem eles. Nada será como antes, porque seu amor e sua lealdade eram como um bálsamo entre os nossos problemas.

Infelizmente, o ciclo de vida destes animais de companhia é muito menor do que o nosso. Portanto, é natural que sejamos nós que venhamos a sofrer pela morte de nosso animal de estimação. De acordo com psicólogos, isso gera um grande impacto emocional nas pessoas, tal e como acontece quando um membro de nossa família morre. Por quê? Porque o cão ou o gato também formam parte desse núcleo íntimo.

Além disso, como indica um estudo da Universidade do Havaí, a dor provocada pela morte do animal de estimação não só é intensa e profunda, mas também dura bastante tempo. Uma em cada três pessoas consultadas disseram que sofreram pelo menos seis meses depois da perda.

A morte de um animal de estimação, o final de uma relação mais que especial

Os animais de companhia nos oferecem seu amor, seu apoio e sua lealdade (em muitos casos, mais do que recebemos de outras pessoas). Devido a isso, quando eles morrem, perdem-se ou são roubados, experimentamos o que os cientistas chamam de “fim de uma relação especial”.

A dor pela perda do animal de estimação não costuma ser compreendida por aqueles que não têm um cão ou um gato. Eles acham estranho que alguém chore desconsoladamente por um animal, se o que morre é um cão ou um felino, desprezam os sentimentos.

Como cada vez mais casais e famílias adotam um animal de estimação e o transformam em um membro a mais da casa, é habitual que se organizem funerais e enterros como se se tratasse de uma pessoa. Inclusive há cemitérios especiais para animais de companhia.

Como superar a morte de um animal de estimação

Não importa se seus amigos ou familiares não lhe entendem ou dizem que você é exagerado por se sentir triste pela morte de um animal de estimação. Se seu cão ou gato morreu, você deve expressar sua tristeza e confrontar a perda. Tire o tempo que necessitar para atravessar este horrível momento.

Embora não tenha que derramar milhares de lágrimas, não as reprima. Alivie toda sua dor através do choro.

Não se deve assumir a culpa pelo ocorrido, já que essa não é a melhor maneira de encontrar alívio. Simplesmente seu animal de estimação morreu e isso não é sua responsabilidade. É melhor que você esteja tranquilo consigo mesmo e que se perdoe.

Seja paciente, já que, durante as primeiras semanas, você se sentirá realmente triste. Se não tiver vontade de falar do assunto, não fale, se preferir passar o final de semana dentro de casa, faça isso. Mas leve em conta que, em algum momento, você deverá retomar a sua vida habitual.

Por último, lembre-se de seu cão ou gato fazendo travessuras e estando feliz ao seu lado. Tente não guardar nenhum elemento que ele utilizava, porque isso causará mais dor. Certamente há muitos animais sem lar que necessitam de comida, camas e brinquedos. E espere um tempo prudencial para levar outro animal de estimação para casa. Uma vez que você saiba que não será uma substituição, você estará preparado para dar a oportunidade para essa nova vida entrar em seu lar.

Referência:

Acesso em 17/01/2017.

Colaborou Tássia Hostin de Deus
Coordenadora do Serviço Social
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

“Foi bom que você não sentiu a morte do seu pai”! Será?



A jornalista Silvia Amelia de Araújo tinha apenas 2 anos quando seu pai faleceu. Diferentemente dos irmãos mais velhos, ela não compreendeu de imediato a notícia da morte mas, como explica nesse relato emocionante, sentiu a ausência tão fortemente que o luto acabou fazendo parte da formação de sua identidade


Não sou boa em guardar aniversários. Já esqueci o de quase todas as pessoas que eu amo. Mas não me esqueço do aniversário do meu pai. Único que nunca comemorei.

O meu pai morreu aos 37 anos. De um infarto fulminante. Em uma manhã de Natal. Eu estava prestes a completar dois anos. Então não me lembro dele.

Já escutei de algumas pessoas “foi bom que você não sentiu a morte do seu pai”, se referindo aos meus irmãos estarem mais grandinhos, com 9 e 11 anos, e terem sido capazes de compreender de imediato a notícia da morte do nosso pai e eu não.

Agora imagine uma criança muito pequena que ama o pai, porque nessa idade já se sabe amar. E antes de entender a morte, já se entende o desaparecimento. Então, pra mim, naquela idade, foi isso, o meu pai que eu amava sumiu. Esse pai que tinha o costume de viajar para trabalhar um dia foi e não voltou mais. Não chegou para a nossa tradicional volta de Kombi pelo quarteirão. Nós mudamos de imediato de casa e de cidade. Ao mesmo tempo todo mundo ficou extremamente triste em volta, minha mãe principalmente. Claro que eu senti. Compreender e sentir são coisas diferentes.

Até hoje, já quase com a idade máxima que meu pai pôde ter, eu choro a morte dele. Quanto mais eu me aproximo dos 37, mais tenho noção do pouco tempo que ele esteve por aqui. Olho para os meus irmãos, já mais velhos do que foi o meu pai e vejo que são jovens ainda. Isso me dá a dimensão da tragédia que foi a morte repentina dele.

Minha mãe diz que meses depois que meu pai morreu eu achei uma foto de um homem barbudo no jornal e fiquei apontando admirada “ó, ó, ó” sem falar nada mais, como quem diz “olha aqui, é ele, finalmente o encontrei”. Meu tio Décio, o mais fisicamente parecido com meu pai, foi nos visitar e, conta minha mãe, eu quando o vi surgir no portão levantei eufórica! Meu tio percebeu que eu estava confundindo ele com meu pai e foi embora chorando para casa.

O luto fez parte da formação da minha identidade. Desde que tenho consciência de mim, eu sou uma menina órfã. Nas minhas primeiras lembranças estão os cochichos a minha volta “tadinha, ela não tem pai, o pai morreu”.

Alguns parentes distantes, que quase nunca encontram minha família, quando me veem dizem uma expressão engraçada: “ela é a bebezinha”. É que eu fiquei marcada na cabeça de todos como a neném órfã, que todos viram quando vieram para o velório do meu pai e que, dizem, foi o dia mais triste do mundo. Triste por ele ser jovem, triste por ter três crianças pequenas, o mais velho com uma doença mental. Triste porque ele e minha mãe eram apaixonados e porque ele vivia um momento de prosperidade no trabalho. Triste porque era dia de Natal. Triste.

Todo Natal eu conto o tempo da sua morte, todo 20 de outubro eu penso em quantos anos ele faria. E penso em como teria sido minha vida com ele. Como seria se ele existisse agora aqui. Minha mãe diz que eu puxei dele meu jeito de ser carinhosa com as pessoas. Será que nós, dois grudentos, viveríamos abraçadinhos?

Será que eu teria alguma brincadeira com ele de puxar seu bigode ou apertar sua barriga? Apelidos só nossos? Será que a gente ia discutir demais? O que ele iria achar da situação política do Brasil? Como seria ter visto as Copas do Mundo com ele? A gente tomaria muita cerveja juntos? E em quais filmes eu teria levado ele comigo ao cinema? E o que ele ia achar de eu me casar com um homem do cinema? Que avô ele seria para o Francisco e a Ana Clara, filhos da minha irmã? E para os filhos que ainda não tive?

Às vezes, quando estou triste, com a autoestima baixa, penso que meu pai falaria algo bom pra mim, de uma forma talvez exagerada e engraçada. Diria que estou linda mesmo quando outras pessoas estiverem me sugerindo emagrecer, por exemplo. Acreditaria que eu tenho talento. E me abraçaria com um força sufocante. Fantasio essa vida boa com ele. Contribui pra isso que o meu pai foi um cara legal, carismático e generoso. As pessoas se lembram dele com muito carinho, com brilho nos olhos. Vários homens já me falaram “o seu pai foi o melhor amigo que eu tive”.

Esse foi o legado que ele me deixou. Tento de coração ser uma boa amiga para os meus amigos. Perder um pai jovem me faz também ter muita consciência de que a morte existe e ela pode vir a qualquer hora. Até no momento mais feliz da sua vida.

Ficou ainda pra mim o exemplo de amor e companheirismo dele e minha mãe. Mas não consigo fantasiar que ele me vê agora. Isso eu não consigo. Essa é uma forma que as pessoas consolam a gente. De onde ele está, ele está vendo você. Não consigo acreditar nisso. Gostaria muito. Mas só penso que perdi meu pai, perdi a chance de conhece-lo, de conhecer também seus defeitos, de ter do que reclamar, de ter historias com ele para me lembrar.

Minha irmã, quando criança, perguntou no catecismo como seria morrer velha e chegar ao céu e encontrar o pai jovem. A catequista disse que a alma não tinha idade ou aparência.

Se céu existir, talvez um dia a gente se abrace e comemore um aniversário dele juntos. Espero que almas possam se abraçar.



Referência:

http://vamosfalarsobreoluto.com.br/2016/12/15/foi-bom-que-voce-nao-sentiu-a-morte-do-seu-pai/

Acesso em 15/12/2016.

Colaborou Tássia H. de Deus
Coordenadora do Serviço Social
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

‘O amor não passa com a morte’, diz especialista em cuidados paliativos


Médica que trabalha com doentes terminais lança livro sobre o fim da vida e o luto


Ana Claudia: “não preciso acreditar, eu sei que Deus existe. 
Assim como eu não preciso acreditar que o Sol vai nascer, eu sei que ele nasce” .


RIO - “Eu cuido de pessoas que morrem”. A frase pode intimidar, mas a médica Ana Claudia fala manso, devagar, não é nada depressiva. Mora em São Paulo, tem namorado no Rio, uma filha de 20 anos que cursa medicina na Alemanha, um filho de 16 anos com quem faz ioga uma vez por semana. Um cachorro e um gato também. “Um gato preto, pra dar conta disso tudo”, diz ela antes de cair na gargalhada. Há 20 anos ela trabalha com pessoas que morrem, e sua visão sobre isso, transmitida em palestras no projeto “The School of Life”, na série TED e no novo livro “A morte é um dia que vale a pena viver” (Ed Casa da Palavra) pode mudar a percepção das pessoas sobre a vida. Nesta entrevista, Ana Claudia fala também sobre a comoção e o luto em torno da morte de Domingos Montagner: "o sentido da vida dele não ficará no fundo do Rio São Francisco".

O que você acredita que acontece quando a gente morre?

Eu não sei, é um mistério, é uma pergunta que não tem resposta pra mim. E eu estou em paz de não ter resposta.

Você observa nos pacientes uma busca por remendar o fim da vida?

Tem uma busca de arremate na própria existência. Talvez esta seja a maior angústia do final: mais do que encontrar uma resposta para o depois, é encontrar um sentido para o que se viveu.

Você tem religião?

Nenhuma religião completa o tamanho da minha fé. No livro eu falo disso, não preciso acreditar, eu sei que Deus existe. Assim como eu não preciso acreditar que o Sol vai nascer, eu sei que ele nasce. Nasci numa família católica, hoje tenho uma filosofia de vida muito compatível com o budismo, mas duvido que tenha uma fé maior do que o pessoal Testemunha de Jeová: eles são muito serenos nesse momento final de vida, e é lindo isso.

Qual sua opinião sobre eutanásia? E a diferença para ortotanásia?

Respeito a eutanásia, quem pede e quem faz. Não pratico, mas não posso dizer que não pediria, porque é mesquinharia da nossa parte antecipar decisões sobre sofrimentos que a gente não experienciou. Mas a minha impressão é que com a eutanásia se perde a chance de passar por todas as etapas da experiência humana. É como comer um lindo bolo de isopor: tem a beleza da cena, da intenção, a pureza do significado, mas a eutanásia sequestra a experiência de viver a sua morte. Porque a boa morte, que é o significado da palavra eutanásia, na sociedade ocidental é aquela em que se escolhe onde e como, é a morte absolutamente controlada. Já a ortotanásia aceita a morte no momento em que ela se estabelece, não há procedimentos para prolongar o sofrimento. Países em que a eutanásia é
permitida não são tão desenvolvidos em cuidados paliativos, porque não há a obrigação de encontrar uma saída para aliviar a dor que não seja a morte.

No Brasil, onde a eutanásia é proibida, os cuidados paliativos são bem desenvolvidos?

Está começando, a residência médica nesta especialidade tem três anos (Ana Claudia fez especialização na Universidade de Oxford, no Reino Unido e criou a Casa do Cuidar, em São Paulo, que oferece essa formação). Hoje as pessoas já escolhem essa residência, mas na minha época era super malvisto, era como fazer a parte suja da medicina.

Você observa pacientes querendo viver e tendo que morrer. O que pensa do suicídio?

Na minha percepção é o extremo do sofrimento, quando não se encontra saída. É como se a pessoa quisesse destruir o mundo, mas como não é possível, a pessoa se destrói. No meu trabalho eu vejo mais o luto do paciente, porque ele vai morrer e todos vão ficar, é o luto mais intenso.

E é comum pacientes terminais quererem se matar?

Quando eu dou a notícia, e a gente conversa sobre a morte, eu pergunto se a pessoa tem medo ou deseja que chegue rápido. Quando a pessoa diz que tem pensado muito em morrer, eu pergunto se está planejando e peço detalhes, porque pior do que se matar é tentar e não conseguir: as sequelas podem ser piores. E o próprio paciente vai se dando conta de que aquele não é o caminho mais fácil.

Como o contato com a morte muda o dia a dia na vida?

Eu dou palestra sobre como lidar com a morte há três anos no The School of Life, e o feedback das aulas é que uma vez em contato com o tema, não tem como voltar, você passa a agir de outra forma em relação ao trabalho, aos relacionamentos, à expectativa de realização, você toma consciência de que você tem prazo. As cenas continuam as mesmas:
tem contas pra pagar, brigas na família, você toma um pé na bunda, você dá um pé na bunda, mas a forma de viver a experiência é diferente.

Você acha que está preparada para a morte?

Acho que sim, todo dia eu penso: se eu morresse hoje eu disse ‘eu te amo’ para todas as pessoas que importam? Fiz o melhor que eu podia do meu dia? Cada dia eu penso seriamente sobre isso.

E a sensação de ficar mal quando alguém morre?

É que a gente não tem certeza que o outro morreu satisfeito com a vida que ele tinha aquele dia. Mas, por exemplo, fiquei feliz demais com a morte da Elke Maravilha, imagina ter vivido inspirando as pessoas a sorrirem quando lembram de você?

E em casos como a morte do ator Domingos Montagner, em que não há despedida? Como trabalhar esse luto?

Se a gente tem essa noção clara de que a vida acaba e que pode ser a qualquer dia desses, o preparo para este momento está em viver. Esse moço fez isso em plenitude e compromisso. Em 54 anos alcançou espaços pessoais e profissionais de altíssimo nível e certamente soube se fazer presente e inesquecível na vida das pessoas que o amam. Eu acredito que por isso, apesar da dor indizível da perda súbita, o sentido da vida dele não ficará no fundo do Rio São Francisco.

Mas a saudade de quem fica não passa...

É, o amor não passa com a morte.


Por Viviane Nogueira 19/09/2016 4:30.

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Referência em:


Acesso em 29/11/16

Colaborou Tássia Hostin de Deus
Coordenadora do Serviço Social BoaVida
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br