segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

As pessoas de quem devemos fugir ...


Mesmo que venham disfarçadas de "boas intenções" certas atitudes diante do luto alheio são terríveis. A escritora americana Erin Donovan descreve, com humor ácido e explícito, o tipo de pessoas de quem deveríamos nos manter bem longe

Entre tantos tabus que cercam a morte e o luto, o humor é um dos mais julgados e (injustamente) considerado inadequado. Acredita-se que não se pode brincar diante da morte. Nem rir de si mesmos e fazer piadas sobre a própria dor. No entanto, como já contamos aqui no post Rir para não chorar, o humor ajuda. Muito. Pode nos tornar mais fortes e resilientes. Um ótimo exemplo de como usar o humor e a ironia a nosso favor é uma “lista negra”, publicada no site americano Modern Loss (muito bom, trata do luto de forma bem livre, direta e sem papas na língua), intitulada “As 11 pessoas que você vai encontrar no inferno”. A autora, a produtora de filmes documentários Erin Donovan, norte-americana, perdeu a mãe em um acidente de carro em 2015 e usou uma boa dose de sarcasmo e humor para descrever os tipos de pessoas mais indesejáveis (e, infelizmente, tão comuns) nos momentos de grande tristeza, que se aproximam dos enlutados para falar coisas que você não quer, não deve, nem merece ouvir. Todos nós já conhecemos um, estivemos com alguns deles (ou talvez , mesmo sem querer, já tenhamos agido assim). A lista de Erin, além de explícita e cortante, pode nos ajudar a fugir dessas pessoas ou, no mínimo, nos ensinar a não agir como uma delas. Selecionei, entre os 11 “eleitos” da autora, alguns particularmente desagradáveis. A lista completa (em inglês) está no site Modern Loss (11 people you meet in hell) e no site Medium.





1- Os competidores nas olimpíadas da tristeza

Não importa o que tenha acontecido com você, algo muito pior aconteceu com eles. Ou com alguém que eles conhecem, ou com alguém de quem ouviram falar ou viram uma vez no Facebook. Estas pessoas nunca desistem da competição e jamais calam a boca.

2- Os fiscais de sentimentos

Verdadeiros experts em psicologia vão dizer que o luto é complicado. Mas não repita isso a alguém que já está morto por dentro. Estas pessoas vão tentar fazer você se sentir o pior ser humano do mundo se estiver fazendo qualquer coisa além de comprar véus negros ou tentando se atirar dentro de um caixão. Ninguém pode dizer se você está ou não vivendo o seu luto corretamente. Você está autorizado a ter bons e maus momentos. Está autorizado a não chorar se não estiver com vontade. Você está autorizado a estar em choque. A sentir tudo. A não sentir nada. A rir do que quiser. Você está autorizado a ter seu minuto de descanso e simplesmente não pensar na morte.

3- Despachantes e minimizadores

Essas pessoas não são capazes de estabelecer uma intimidade emocional ou suportar o desconforto, então tentam despachá-lo rapidamente para a “normalidade”. Não existem platitudes suficientemente vazias ou idiotas para essa gente. Aqui estão minhas menos favoritas:

“o tempo cura todas as feridas”; “Deus não dá mais do que você pode suportar”; “quando uma porta se fecha, uma janela se abre (será que isso quer dizer que alguém tem que sair pela janela para escapar da situação atual? Quem quer isso??)

Essas frases só servem para dar a quem as diz a oportunidade de contornar seu sentimento de impotência. As pessoas podem se sentir desconfortáveis por dois minutos e não morrer. De verdade, não é pedir muito.

4- A brigada do “pelo menos”

De verdade, qualquer declaração que comece com “bem, pelo menos…” não devia se feita em voz alta. Nunca. Simplesmente, não. Isso se aplica a qualquer contexto em qualquer situação. Nunca diga isso para ninguém e definitivamente não diga a ninguém que tenha experimentado uma perda importante. Empatia não é um recurso limitado, não precisa poupá-la. Minha única resposta para pessoas que me “lembram”que existem crianças famintas ao redor do mundo é “você parece não estar fazendo muito por elas também”.

Nota de rodapé: Eu digo “pelo menos” para mim às vezes. “Bem, pelo menos minha mãe não sofreu muito”, “pelo menos ela tinha um bom seguro’. É ok você usar o “pelo menos”para si mesmo de vez em quando. É parte da racionalização da perda radical que experimentou. Mas ninguém mais pode dizê-lo para você. Em nenhuma circunstância.

5- Os enobrecedores 

Estas pessoas querem colocá-lo em um pedestal de bravura e fortaleza e falar por você mesmo quando as coisas estão em desordem absoluta. Usam palavras como “coragem”e “grandeza”e aparecem sempre em meio a atos de violência. Por que tantos repórteres perguntam a alguém que acabou de perder um ente querido assassinado se ele perdoa o assassino? Como isso ajuda alguém? Resiliência é algo que você desenvolve depois de uma perda, não o que precisa mostrar em seu pior momento.

Uma palavra conciliatória da autora sobre a lista das pessoas “que você vai encontrar no inferno”: muitas dessas atitudes lamentáveis estão tão presentes na nossa cultura que, quando possível, devemos tentar ser generosos com essas pessoas que são inadvertidamente horrorosas. Pessoas que se aproximam e se sentem desconfortáveis merecem o benefício da dúvida. São diferentes das pessoas que são horríveis e dizem coisas terríveis em momentos terríveis porque são horríveis em seu coração. Aprender a selecionar que tipo de mau comportamento você não pode permitir e qual você pode perdoar é um trabalho difícil e necessário. Mesmo quando você não está de luto.

Por Cynthia de Almeida 06/11/2017


Referência:

http://vamosfalarsobreoluto.com.br/post_helping_others/as-pessoas-de-quem-devemos-fugir/


Acesso em 28/12/2017

Colaborou Tássia H. de Deus
Assistente Social Boa Vida
E-mail: tassia.hostin@boavida.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário